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O castelinho de ilusões



Já estou dentro do castelo quando dou por mim. O chão espelhado, além fazer o ambiente tomar dupla proporção, me força a assistir meus passos em ângulo inferior. Acima de mim, um teto colossal, decorado com fotografias de partes do meu rosto sobrepostas, confusas, formando um mosaico disforme de mim mesma, que eu não gosto de olhar. Ao meu redor só o que vejo são 7 portas. A curiosidade me toma, e abro a primeira.

É uma sala abarrotada de gente, de todos os tipos. Imediatamente a porta atrás de mim se fecha, e tento abri-la sem sucesso. Pergunto o que esta acontecendo, como eu saio de lá, e todos respondem ao mesmo tempo, apontando para as mais distintas direções. Não há espaço, não consigo respirar, as pessoas me puxam, e riem diabolicamente, eu me lembro de Sartre e penso que devo estar no inferno. Vou empurrando as pessoas no meu caminho, porque não encontro outra forma de tentar achar algum.

Elas me puxam, puxam minhas roupas, se espalham pelo meu corpo, e milhares de mãos seguram meus braços. A algazarra conjunta de vozes e falas indistinguíveis me angustia de forma tal que sinto vontade de arrancar meus tímpanos. Estou assustada, sem saber como sair dali, se há saída, e me abaixo simplesmente, no meio da multidão, tapando os ouvidos. Sinto me pisotearem, e grito, e meu grito se confunde no meio da balbúrdia, e ninguém me escuta, nem me vê, e aquilo é tão familiar que eu não quero nem explicar o quanto. Sou cuspida por alguma força misteriosa para fora da porta, que repentinamente se abre, e vejo o povo correndo na minha direção e porta se fechar fazendo um estrondo que ecoa por todo o castelo.

Permaneço alguns minutos no chão, sem forças. Levanto-me cambaleante e caminho até à segunda porta. Sinto um medo abissal em abri-la, ao mesmo tempo que minha mão já gira o trinque, e nesse momento eu penso no quanto é o meu medo quem me faz abrir portas. Eu vou abrindo devagar, e ela faz um barulho que me lembra qualquer filme de terror mal-feito. Uma penumbra me permite apenas distinguir a silhueta dos móveis antigos, dispostos numa composição melancólica, de ar londrino. Aos poucos percebo o papel de parede estampado, poltronas listradas, vasos com flores artificiais, as cores são mortas, tudo me parece completamente sem vida.

Escuto um choro de criança, e a procuro por tudo. Até que vejo um pezinho perto de uma janela cerrada, atrás da longa cortina, que arredo imediatamente e vejo uma menininha. Ela cobria os olhinhos com as mãos, tão assustada quanto eu não demonstro nunca estar. Eu tento acalmá-la, lhe pedindo para não chorar, nem ter medo, e então sinto aquela força me puxando para fora da sala novamente. Tento me segurar em qualquer coisa, não quero deixá-la sozinha, mas a força me expele impiedosamente e a porta se cerra. Eu sinto uma culpa tremenda, uma sensação de fracasso, fico por algum tempo batendo na porta desesperadamente, tento arrombá-la. Em vão.

Percebo que tenho que seguir. Não há outra coisa a fazer. E abro a terceira porta esmagada pelo peso da minha própria impotência. Dessa vez é um quarto. Ele é pequeno, claustrofobico, feito inteiro de aço. Tudo ali é feito de aço, as paredes, a cama, os travesseiros, o armário, os objetos. Tem um imenso espelho pendurado na parede ao lado da cama, e me coloco de pé a sua frente. Ao invés de um reflexo humano, eu vejo minha forma robotizada. Olho imediatamente para meu corpo, que continua igual. Mas o reflexo é o de um ser de lata. Programado para sorrir, para dizer bom-dia, para reagir com cautela, para cumprir sem margem de erro todas as tarefas. Não consigo encarar o reflexo, e fecho os olhos. Quando me vejo, já estou no centro do palácio, com quatro portas a minha espera.

A quarta e a quinta porta, tinham uma passagem direta entre uma e outra, como uma continuação. Ambas eram o meu passado. A primeira, um passado remoto e a segunda, recente. Todos os crimes, todas as dores, as inocências perdidas caminhando junto com sonhos desfeitos em formas ectoplasmáticas. Os amores bem ou mal vividos, as perdas, os bons momentos, os livros, os discos, os filmes, as cartas, as fotografias. Meu primeiro sapatinho, meu primeiro desenho, meu primeiro caderno, minha primeira vez, minha primeira queda na realidade, meu primeiro veneno anti-monotonia. O quadro de medidas que meu pai costumava marcar o meu tamanho com o ano, “Manuela, 1989, 1,23m”. Cadernos, diários, agendas, alguns sons e cheiros, que me inundavam de recordações e saudades. Não queria mais seguir. Queria permanecer ali estacionada, não porque me sentia bem, mas porque me sentia presa, como se não houvesse outra escolha. Nesse momento fui novamente lançada ao centro do castelo.

Obrigada a deixar aquelas portas para trás, abri a sexta. A sala era gigantesca e parecia vazia, completamente vazia. Chegava a ser grotesco. No primeiro passo que dei, eu simplesmente caí. Mas ela não tinha chão. Eu estava em queda livre. Ela não tinha fundo. Eu apenas caía. E enquanto caía, via ao meu redor as inúmeras coisas que eu  inutilmente uso para tentar me segurar, ou para preencher caricatamente aquele espaço vazio. Todas elas estavam ali, sem exceção, e todas ali reunidas pareciam minúsculas, totalmente incapazes de cobri-lo, pareciam uma piada. Ali eu vi o tamanho do buraco que a minha alma tem. Foi aí que voltei, não sei como, da queda ao centro do castelo.

Eu tinha que abrir a última porta. Andei até ela, e respirei fundo. Pensei um pouco antes de agir, como sempre não muito. Eu abri. Uma ventania veio em fúria para cima de mim. Dei um passo para frente, de olhos fechados, juntando toda a coragem que me restava. A porta bateu em explosão atrás de mim. Abri os olhos, e vi uma praia. Não era uma praia comum. O mar era negro, com ondas violentas, nenhuma vegetação ao redor, e a areia a minha frente tinham pegadas tamanho 35 em direção a água furiosa. Estrondos de trovão sem raios. Um ar gélido tomou conta dos meus pulmões, entrou na minha corrente sangüínea, e começou a me congelar de dentro para fora. Ali eu entendi.

Voltei ao centro do castelo, ainda tremendo de frio. Me deitei no chão, de braços abertos. Uma das partes do mosaico do meu rosto caiu do teto, e se espatifou no chão perto de mim. Foi quando vi que ele estava prestes a desmoronar. Permaneci deitada, de braços abertos. Eu tinha uma calma inacreditável para aquela situação, vivia o paradoxo da minha própria calma, eu já sabia ali. Foi quando acordei. Depois disso a minha analista finalmente concordou comigo que meu inconsciente é sarcástico e cria metáforas cinematográficas.


Efeito Borboleta



O texto a seguir é do meu querido amigo Francis Londero, figurinha repetida aqui nesse álbum eternamente incompleto. Além de psicólogo, mestrando, astrólogo, poeta, inteligente, e possuidor de um sarcasmo singular que só cabe a sua pessoa, o cara ainda arrasa quando escreve. Segue o feito:

Ontem à noite, ao me deparar com a profunda vontade de fazer nada, acabei por ligar a tv. Deparei-me com um filme do qual já ouvira falar milhares de vezes. Ouvi gente relacionando-o com a física quântica e sua famosa frase de que “uma borboleta batendo as asas no Japão mexeria com a força das ondas no mar latino americano”. Se não é bem assim a frase, é quase isso...

A película retrata em grande parte o desejo de todos, de poder voltar ao passado na tentativa de garantir um presente perfeito, mais sereno, tranqüilo e feliz. Quem nunca se imaginou voltando ao passado e fazendo sua vida de outra maneira? O que é perturbador neste filme é que o destino do garoto muda sim, mas não da forma que ele tinha planejado. O caos sempre joga junto com o sujeito os dados do destino: efeito borboleta!

A grande sacada que podemos tirar do filme pode ser assimilada a partir do conceito nietzscheano de amor fati - amor ao destino. Não importa como as coisas procederam na vida a partir das ações tomadas, mas sim na maneira em que se aceita “pelear” nos acontecimentos efetivados em vida. No querer o seu destino sempre e de maneira infinita. No perpassar pelas mesmíssimas coisas infinitamente para sempre.

Ora, com um desejo assim, como alguém iria se dar ao luxo de “errar” em suas escolhas de vida? É somente desejando de maneira infinita o próprio destino que o criamos originalmente. Amamos o destino e neste caso já não se tem certo ou errado em tal percurso, já não é importante o que se efetivou enquanto vida, mas sim a intensidade de vida que se colocou em tais avanços. Vida criativa do amor fati...

A questão é: somos capazes de desejar com tanto desprendimento a vida, não se importando mais para o que deu certo ou errado? Imagino que não, ao menos, na grande maioria do tempo. Afinal, podemos ver o quanto tentamos nas possibilidades de fuga do destino que já se realizou. Reféns de um passado lamentado, sussurros que enraízam o sujeito na tristeza errada que se transformou o presente.

O interessante nesta história toda, é que no mundo contemporâneo, além de cairmos em crises de lamúrias por um passado perdido, ainda temos de maneira mais discernida a ciência de que o passado retocado, mudado e transformado no que seria ideal não dá garantia nenhuma de felicidade e de certeza de que nada dará errado.

O mundo contemporâneo se caracteriza por uma verdade que desliza, que nunca é encontrada e concretizada. A partir de seu modos de subjetivação, dilui-se o mundo romântico de final feliz, de verdades e certezas. E nesta diluição das verdades, do enfraquecimento e mesmo da diminuição de uma identidade no sujeito contemporâneo, vemos o mesmo dançando entre seus fracassos na medida em que, ou fica a lamuriar seu presente insatisfatório fruto das ações passadas, ou se vê desamparado na impossibilidade de produzir seu futuro, devido à potência que o plano de virtualidades lhe oferece.

Ora, não se tendo mais instituições “fortes” que lhe digam o caminho “certo”, o homem contemporâneo se encontra perdido para tomar para si tamanha liberdade. O que fazer então com os efeitos produzidos por anos de domesticação que despotencializaram o sujeito, enquanto ser liberto? O que fazer para que as escolhas feitas não se tornem um fardo quando o mesmo olhar para elas no passado?

A questão é saber se o efeito borboleta que desejamos transcorre a partir da produção de desvios no que já se passou, ou se ele se passa na criação de desvios a partir dos processos de atualizações do mundo virtual, do mundo em potencial que está aí para se realizar. No caso do primeiro, olhar para trás na tentativa de apagar pegadas mal feitas. No segundo caso, a afirmação das pegadas que se vai marcando na estrada da vida.

O (re)encontro* - Parte II



*Série “Contos e Desencontros”



Irreconhecível. Foi o melhor emprego que já usei da palavra. E não era pelo vestido florido mais comportado do que um cão amestrado. Nem pelas unhas curtas e peroladas, pela casa "tranqüila" demais, pelas sandálias rasteiras, ou pelas sacolas da fruteira carregadas de legumes, verduras, algumas bananas, maçãs e peras, quiçá era pela franja no cabelo penteado e escovado com as pontas voltadas para dentro.

Era pela falta de luz. Dos olhos, dos sorrisos, dos gestos, dos trejeitos. Nos tempos sofregamente áureos, nenhuma alma pequena poderia olhar fixamente sem desviar o olhar, devido à luz. Esta que eu não encontrava. Eu estava na casa de dois estranhos. “Você mudou”. “Você também.” O abraço prolongado e forte de sempre me reviveu o peito tal como um desfibrilador revive um coração recém infartado. Senti correr nas veias uma saudade imensa, que nem sei explicar como havia conseguido anestesiar.

Na noite do mesmo dia seu marido saiu, e ficamos a sós na cozinha enquanto ela preparava um chá. Eu estava escorada no balcão, ainda com a mesma cara pasma que fiquei desde o primeiro momento, observando aqueles trejeitos que não reconhecia, de uma fragilidade adquirida, de uma desconexão sofrida, de uma liberdade infringida. Ela me sorria educadamente, era cordialmente gentil, e aquilo servia para me matar por dentro. “Não quer chá? Quer vodka?”, disse entre risos incertos.

Não respondi nem sorri de volta. “Ele te bate?”. Foi o suficiente para ela cair no choro. Fui até ela e sentamos no chão da cozinha. “Quer que eu o mate?”. Vi o primeiro riso solto. Mas ele não a batia na carne. Fazia pior. Escutei ela me contar a história de como se conheceram, de como ele a foi domesticando, lhe podando primeiro as garras e por fim as asas. De como foi para o mundo e caiu naquela vida que não a pertencia. Ouvi sobre os jogos, as outras mulheres, os assassinatos diários.

Ela não o amava, nem ele a ela. Ele a provia na matéria, ela o provia na perversão da supremacia. Não a toa ele perseguiu um dos bichos mais selvagens, não a toa a falta de brilho me remetia a uma cabeça de caça pendurada na parede. E ela estava infeliz, de uma infelicidade que só quem trai a si mesmo conhece. Ela sabia. Eu sabia. “Decepcionada?”, me perguntou entre soluços, ao que respondi “ainda não”.

Disse o que qualquer um diria, não havia como escapar do denominador comum. Ela hesitou. Segurei o rosto cabisbaixo de desculpas esfarrapadas, erguendo sua cabeça a força e fixei os olhos dela nos meus, não lhe dando escolha, senão me encarar. Era preciso não falar. Em silêncio, ela escutou que havia me chamado procurando por ela própria, e que eu ali estava fielmente, cumprindo o papel.

Continuamos nos olhando em silêncio, até que eu disse que deveria ir embora. Ela entendeu. Peguei as malas que nem cheguei a desfazer. Da mesma forma de sempre, amava sua liberdade, e minha função acabava ali, sob o risco de engaiolá-la na amizade, o que seria uma traição verdadeira.

Beijei seus lábios, e ela me agradeceu por ter vindo, momento no qual eu pude enxergar os mesmos olhos vivos de outrora. “Sempre que precisar”. Não faço a mínima idéia por onde ela anda, o que me deixa feliz. O vento me sussurra que nunca no mesmo lugar. Ouvi dizer que pouco tempo depois disso se separou. Mas prefiro acreditar que ela se reuniu.

O (re)encontro* - Parte I





*Série : “Contos e Desencontros”.




Ela se aproximou por pura insistência, mas ganhou minha amizade por competência. Não tínhamos nem duas décadas de vida, mas sentíamos tal como idosas descontextualizadas observando nossos representantes na juventude esgotada. Compartilhávamos a paixão pelos palcos e platéias, a revolta incurável e aquele vigor incansável em querer mudar o mundo começando por si.

Ela me fez – por mérito irrestrito – admirá-la, respeitá-la e amá-la. Era livre, era brutal, tinha uma das mentes mais ativas que já havia visto. Não tínhamos diploma ou título, mas os vários feitos cotidianos nos valiam mais do que qualquer papel na parede que comprovasse qualquer falsa identidade. Apesar do frescor de nossa pouca idade, havíamos percorrido mundos ainda não descobertos pelas massas ou esferas.

Nossas escolhas nos separaram. Eu escolhi a trilha tradicional do medo prestando vestibular. Ela escolheu cair de boca no mundo. E caiu, em vários sentidos. Juramos jamais perder o contato, mas não cumprimos. Eis que anos após aquela adolescência tresloucada, através de um telefonema inusitado em plena e pacata quarta feira, escuto uma voz familiar d’outro lado da linha. “Salve”, ela disse com uma entonação menos impositiva do que costumava me saudar.

Tinha voltado, tinha casado, morava noutra cidade, não era longe, precisava me ver, não sabia exatamente por que, mas sabia que era urgente. Sábado daquela mesma semana eu já carregava o porta-malas do carro prestes a passar o final de semana numa cidadezinha da serra gaúcha, sem saber o endereço, o telefone fixo, nem quem ela tinha se tornado, já que reencontros são sempre reconhecimentos.

Telefonei ao entrar na cidade, e ninguém me atendeu. Sem saber para onde ia, parei em um café para decidir por quanto tempo ia seguir telefonando até fazer o caminho de volta pra casa, descarregar o porta-malas, recolocar as roupas no armário, a saudade no peito, a indiscrição na impossibilidade e todas as palavras não ditas em textos, destino amargo que um bom expresso parecia amenizar.

Antes do café chegar meu telefone toca novamente, e ela agora ao descobrir que eu já tinha chego, me explicava o endereço de sua casa numa imediaticidade verborrágica que me deixava sem saber o que fazer. Anotava tudo em guardanapo? Registrava as informações no gravador da máquina fotográfica? Pedia a gentileza em poder ditar as coordenadas para garçonete sorridente que amigavelmente transcreveria em seu bloquinho de pedidos? Ou apenas não ouvia nada do que não parecia ser preciso escutar e perguntava o que estava acontecendo? Optei pelo guardanapo, pedindo para ela soletrar e me dar tempo.

Sem dúvida algo estava acontecendo, constatação que nada me ajudava em qualquer diagnóstico hipotético, porque sempre existe algo acontecendo. Tomei o expresso queimando a língua e decidi ir logo. Me perdi por pouco tempo, o que já é excepcional. “Uma casa creme com margaridas na entrada e um muro pequeno na frente coberto de trepadeiras”. Me parecia algo tão trivial para ela. Se ela me dissesse que morava no alto de um penhasco ou em cima de uma figueira creio que acharia mais apropriado.

Acabei achando a tal casa creme mais pacata e menos ela que já tinha visto. Estacionei na rua de paralelepípedos, no espaço cedido pelos meninos que ali jogavam bola. Das janelas da frente beiradas com flores, à entrada de pedras em contraste com a grama recém cortada, indo até as sombras das árvores vizinhas, todos os elementos compositivos pareciam me dizer que eu estava no endereço errado. Conferi o número da casa e o nome da rua novamente e não estavam.

Busquei-a na memória. Cabelos, língua e sorrisos soltos. Bela. Peculiarmente encantadora. Era o que a memória me oferecia. Sai do carro, passei pelo caminho de pedras dispostas na grama, toquei a campainha, que parecia ter feito TUM-TUM ao invés de TIM-TIM. Um homem alto atendeu, e disse que eu deveria ser quem eu era de fato, me chamando pelo nome como se tivéssemos sido apresentados.

Me convidou para entrar, se ofereceu para descarregar meu carro, checou meus seios, trouxe as malas para dentro, explicou que ela havia dado uma saída e já voltava, me mostrou meu quarto de hóspedes em cima das escadas, checou minha bunda, e antes que eu gritasse ouvi a voz dela. Meu queixo quase caiu de uma altura de 1,60 m quando a vi.

(continua...)


Desculpe decepcionar...




Quem me acompanha já percebeu. Até quem me vê lendo o jornal ou na fila do pão já se deu conta. Para quem me escutar cantarolando pelas ruas, estará na cara. Mesmo que não escreva necessariamente sobre mim, não há como separar por completo a escrita do autor. Perdi o fio? Talvez. Sigo escrevendo assim mesmo porque escrever não é para quem quer. Nem para quem pode. É para quem não tem escolha.

O conteúdo mais aéreo dos escritos, entretanto, parece estar aborrecendo alguns e dentre estes, alguém em particular. Gosto bastante de saber que incomodo, me ampara de cair na mediocridade. Uma amiga certa feita me cuspiu uma sentença que me transtornou brevemente, referindo-se às mulheres. Disse que elas toleram outras mulheres bonitas e burras. Feias e inteligentes também. Segundo ela, para a maioria representacional do gênero, “mulheres bonitas e inteligentes não tem perdão”.

Vou além. O que incomoda o cerne da falta de existência é felicidade. Fato. Sempre fui muito íntima da tristeza, uma das melhores amigas de um artista. Construímos – eu e ela – uma relação sólida, miraculosamente baseada em completude. Uma trazia os desencantos, a outra transformava em cantos. Minha lealdade é tamanha, que adoraria ter mesmo feito ou passado – por pelo menos – metade das coisas que dizem por aí que vivi. Certamente minha escrita seria densamente mais interessante. Além de que eu entraria no livro dos recordes por ter superado os limites humanos de sobrevivência.

Suscitaria curiosidade e me faria vender livros. Isso sem mencionar o conteúdo ilimitado da minha biografia. Dariam roteiros de filmes a peças jamais representadas na esfera cinematográfica ou na história teatral. Também não hei de desmentir nada. Conhecem aquela velha história falem bem, falem mal? Se a frase clichê não existisse, eu a patentearia. Até porque se falam pelas minhas costas, significa que estou no lugar certo, na frente.

Ocorre que o inesperado me aconteceu. O pesadelo de qualquer poeta. O letargo de um artista. O fim do bom samba. Foi de repente, súbito, impensado, repentino. Me vi assim, admirando o jardim do vizinho que nunca tinha reparado. Vendo mais cores, encontrando sentimentos escondidos, caçando sonhos fujões. Sorrindo sozinha. Boba. Tola. Ridícula. Feliz.

Tenho dificuldade em lidar com isso. Por vezes me vejo desejando ter a minha tristeza de volta. Ou a minha revolta crônica, que permeia de sarcasmo meus textos. Sei que voltará qualquer dia desses, só não sei quando. Enquanto isso os “anônimos”, que certamente não se alfinetavam com uma garota triste, vão ter que continuar não suportando me ver assim, rindo à toa.

Entendo, eu mesma quase não suporto. Mas o que eu vou fazer? Garanto que tenho tentado! Tenho lido Lipovetsky e Nietzsche como nunca. Inclui no Ipod músicas que fariam qualquer “Emo” revirar o olhinhos. Revi varias vezes “Réquiem para um Sonho”, “As Horas”, “Dançando no Escuro”, dentre outros. Derramo algumas lágrimas discretas, esfrego o nariz e não dá 5 minutos estou sorrindo de novo.

Será que terei que apelar? Assistir a Globo? Freqüentar baladas? Comprar literatura de auto-ajuda pra ver até que ponto as coisas chegam? O problema é com a permanência da sensação: ela parece não perdurar. Não tenho culpa, aconteceu. A vida sorriu pra mim. Ou eu pra ela. Ou as duas coisas. Prometo que seguirei tentando, mas por hora estou estupidamente feliz. Desculpe decepcionar.

Atrás do escuro



Quem partiu a noite? Ou já será esse um costume nosso? Já está tarde e o sono deve estar fazendo amor com a tranqüilidade em cima de alguma nuvem insurgente. “Fica tranqüila”. Como se estar viva não fizesse mal algum pra quem padece. Ocorre que ainda não descobri como vou me inventar diante dessas importunas horas gagas à tua (quase) frente? Tudo isso pra não ter que encarar o destino de te amar ao lado da tua ausência, que piora quando escurece. Perco mesmo a fala, em fidelidade a mim mesma, entenda.

Não consigo morrer nas madrugadas porque são nelas que a vida chega. E as roupas todas espalhadas pelo chão fazem o melhor cenário da verdade tão perturbadora para os andantes vestidos. Estes que não entendem que minha alma tem índole obscena e opta por viver nua. Eu quem não deveria entendê-los, afinal, que alma precisa de vestes?

Nada em mim se faz mais ou menos. E nenhum de nós dois somos frutos ou serventes do acaso. Tenho medo do que faz sentido, mas prefiro continuar assim para me proteger da conveniência. De qualquer forma duvido muito que tu tenhas fôlego para enfrentar meus excessos, meus instintos, minha insônia, e especialmente minha clandestinidade. Prefiro crer que te preservo. E confia que o faço, a meu modo.

Não tenho código de barra, de gênero, de comportamento, é inútil me procurar em qualquer uma das inúmeras conjecturas mundanas. Mas tenho alma suficiente para alcançar o horizonte. Sei que com o passar dos dias esse miocárdio vai parar de me golpear no ritmo frenético em que se encontra neste exato momento. E sei que o vento vai levar com ele todos os lugares que teu cheiro me faz ir, mesmo que ele agora esteja por todos os cantos, mas desencantos são assim mesmo, fixados na minha pele.

Estou sim, cônscia dos pormenores. Estes pequenos detalhes. Quem mora atrás da cortina. Quem é artista sem platéia. Quem monologa ao telefone. Quem tanto almeja que se priva. Quem se esquece por tanto lembrar. Quem enxerga no escuro. Ah, e claro. Que o vento e eu, vamos para o mesmo lugar. Ele como eu, nunca verás. Mas sentirás quando viermos.

Mensagem de fim de ano




O texto a seguir desta vez não é meu. Uma excelência escrita por meu caríssimo amigo Gabito Nunes, do Caras Como Eu. Um neo-romântico, sem a falta de sal e pimenta de um Romeu shakespereano, mas sem os excessos da canalhice a la Nelson Rodrigues. Para quem não conhece o trabalho do escritor, permeado com uma malícia requintada, frases acrobáticas, maestria no verbo, pitadas de sarcasmo e pureza de sentido, vale a pena conferir.

Gabito é simultaneamente um colhedor e um artesão. Ele colhe as essências, os corações sufocados, a descrença, a dor, os amores em seu primeiro sopro, as paixões, as renúncias, os sentimentos ou a falta deles, as manifestações mundanas, as palavras possíveis e as não ditas como matéria prima, além de sua própria insustentável leveza de ser, e então confecciona escritos belíssimos. E apesar do nome de anjo, escreve como o diabo gosta. Por isso, claro, leio todo dia.
Segue:

FELIZ DESENCARGO DE CONSCIÊNCIA
" A mesma cena se repete quase o ano inteiro. De seis de janeiro a meados do Natal, tiro meu carro de ré da garagem, manobro, acelero em frente e cruzo com meu vizinho de porta. Aceno incerto com a cabeça num "e aí?" e ele age como se eu tivesse trazido o vírus Ebola para o bairro ou jogado sua filha pelada num fotolog.


Moro numa região nobre da cidade, apelidada jocosamente de "Beverly Hills". Onde os vizinhos não têm nome, onde os vizinhos cheiram free shop, onde os lares são doces, mas não irradiam laços nem desarranjos familiares. Aqui não tem churrasco na laje, não tem auê na rua, não tem dor de dente, não tem algodão doce, não tem Jorge Aragão a todo vapor, não tem criança jogando futebol com goleira de chinelo havaianas. Mas - uêba! - vai ter festa de Natal chefiada pelo vizinho fonofóbico. Pasme.


É a lei da recompensa. Debite sua frigidez e indiferença no mundo o ano todo e pague as contas do seu amor pagão no Natal, à vista, por desencargo de consciência. Instale luzinhas coloridas e ridiculosamente piscantes, ornamentos filiformes decorados com algodão em alusão à neve que miraculosamente rebentaria em temperatura veranista, e meiões megalo-patéticos onde um senhor de roupa vermelha e barba branquinha supostamente descarregará os presentes que não fizemos por merecer. Chamam de espírito lúdico, eu de esquizofrenia coletiva decorada com veadinhos.


A Broadway é aqui, onde todos tem uma peça super produzida a apresentar, sedentos pelos créditos, por desfilar em carro de bombeiros, disputando a tapa os figurinos de boca de palco. Pierrôs, Arlequins e Colombinas protagonizando grandes feitos. Enquanto isso, os pequenos gestos agonizam. A gente ama se odiando, à distância, trocando aqueles dois beijinhos "socialite" pra não borrar a maquiagem ou enganchar as máscaras cirúrgicas.


Ojerizo sim essa funçanata "dingobel", mande fazer uma placa de "anti-social". Penduro no pescoço com gosto, se "socializar-se" for dar um abraço anual, geralmente em dezembro, embalado por Vangelis ou Mariah Carey, ceando na mansão da tia Ilse, parabenizando canudos e anéis de formatura, cantando "adeus ano velho" bêbado, suado, com o cofrinho de fora. Feliz ano novo, tudo de novo.


Prometi nenhuma resolução este réveillon, mas abro uma exceção. Eu prometo gestos banais. Não fingir que não vi o braço amputado da tia que me vende capuccino, não fingir que minha avó não está mais viva, que desconheço a frustração sentimental da mãe do meu amigo, que não vejo o alcoolismo do meu colega, a cara suja de fome do piá indígena na sinaleira, que meus amigos narcóticos não são responsáveis pelo roubo do meu carro ou minha crônica falta de ar dentro do terno preto, feito sob medida para aparentar alguém que não sou. Meu pai me ensinou duas coisas nesta vida: 1. Não abra o vidro de pepino com faca; 2. "All You Need Is Love". E o filhodaputa estava certo. O resto é merda mal saneada.


Promessa feita, começo a atravessar velhinhas na faixa de segurança depois do Dia dos Reis, claro. Quando desmontarem essa parafernália que pisca e não cacifa um facho de luz pro fim do túnel. Não darei o gostinho de que esta "mini-reflexão-natalina" respingue iluminação artificial nas minhas boas ações. Só pra contrariar, coerentemente."

Depois deste texto, fico mais confortável pra desejar um feliz Natal e ano novo para todos. Pronto falei.

Talvez no tempo da delicadeza...




Acordei sem despertar naquele dia. Todas as pulsões chacinavam-se, esgotadas. Meus pensamentos espalhados por todos os cantos, como cigarras performáticas de um verão glacial. A princípio pétalas, mas ali o caule inóspito revestido de um silêncio mortal.

Quando caminho por entre as sombras dos teus aforismos, vejo que são tão ou mais desordenados do que os meus. Não fazes idéia. Reprimiria os anseios submetidos à ordem de infração, sob teu magnetismo indesviável. Até mesmo me soltaria sem bússola caso fosse, mesmo que sem pouso. Ainda que sem repouso. Faria.

Entendo os receios, mas quanto à confiança devo alertar que sou um contra-senso aos que duvidam. Aos que não crêem sou mesmo um paradoxo, um demônio de silfos vestindo asas barrocas. Para os que não se arriscam na exuberância da soltura, aceito que me culpem. Que assim seja e me poupem de seus desgostos.

Nós somos d’outra natureza. Teu espírito também foi tecido em lugar edênico e estamos atrelados pelo mesmo fio. As mesmas dores, a mesma angústia, que já cristalizam pelas frestas de virtudes. Os subsídios já estão todos forjados.

Quanto às pedras atiradas, não procuro lapsos de bondade em olhares alheios, por onde possa encontrar ciscos de reconhecimento vulgar. Nem mesmo desejo partilhar parte da culpa através dos julgamentos de outrem. Faço por inteiro e que a conseqüência seja cabalmente minha. Hei de seguir da mesma forma, sem margem, sem método, com amor irrestrito.

Manicômios são territórios em que espíritos ordinários de olhos vazios depositam almas inquietas como as nossas. Depois que morrermos, viraremos bons poetas. Pobres, mal sabem de onde viemos, por onde andamos. Fracos, desconhecem a guerra e a honra. Ignorantes dos ventos que nos fazem içar as velas, bebendo poesia no remanso das águas. Que assim seja a sentença e custo. Cada qual sabe da própria renúncia, mesmo que seja por inabilidade.

Ainda tenho erros por cometer, e não há como ser d’outro modo. Assino cada um com nome, sangue e digital. E após toda essa deselegância virá nosso tempo, onde te alcançarei subitamente, irreversivelmente. Quiçá na face imprevista da poesia que corre a galope,  abruptamente carregada pelo vento. Sem mágoa, sem volta. Por inteiro.

Rosas do cotidiano




Se por onde passo, arrasto.
No passo, no lastro, no riso
Fica sempre o espaço guardado
Esse que não é de ninguém
Esse que é do mundo inteiro

Lembranças sorrateiras
Visitam-me de madrugada
Sorrisos petrificados
Já me escorrem pela face
Sem garantia de memória futura

De lembranças, quero os olhos
Os mesmos olhares calados
Até que percebo que não são lembranças
Até que entendo que estão fixados

E descubro que desconheço o sossego
O silêncio é um grito contido
A claridade é a ausência de escuro

Continuo passando sem passeio
Continuo sentindo sem abrando
E se tento é atentado
O dano tem gosto de morte
A dívida, de vida inteira

O espinho da flor é abrigo
Mas fere sem justificativa
A lâmina do corpo é só tristeza
A lâmina no corpo, também



"Elephant Gun


If I was young, I'd flee this town
I'd bury my dreams underground
As did I, we drink to die, we drink tonight
Far from home, elephant gun
Let's take them down one by one
We'll lay it down, it's not been found, it's not around
Let the seasons begin - it rolls right on
Let the seasons begin - take the big king down
Let the seasons begin - it rolls right on
Let the seasons begin - take the big king down
And it rips through the silence of our camp at night
And it rips through the night
And it rips through the silence of our camp at night
And it rips through the silence, all that is left is all
That I hide"

Nos olhos de quem vê. No peito de quem sente.




As divagações prodigalizadas e a dissimulação no tom que permeava a prosa já estavam lhe incomodando há algum tempo. Haviam percorrido quase todos os assuntos. Ela, na verdade. Ele se sentia perseguindo-a por plantações de milho, onde escutava sua voz, sem precisar de onde vinha. O tom da argumentação desbotada parecia uma verdadeira arte em protagonizar o nada. Sem vida. Sem calor. Vazio. Não conseguia encontrá-la. Exclamou quase em súplica:

- Quando tu vais finalmente tirar essa roupa?


Disse, com o olhar mais intrusivo que ela podia se recordar, pelo meio da íris intrêmula.

- Como assim?
- Vai tirar ou vou ter que tirar pra você?

Ela não acreditava. Só poderia estar ouvindo errado. Avistava por detrás dele uma enorme vitrine de vidro, que separava o café em que estavam sentados da rua. Lá fora passos nervosos. Ali dentro lenços de papel secavam suores de testas distintas, e os últimos goles dos restos amargos de expresso, tomados em pé. Lá fora, luz-cinza do urbanismo diurno, cujo clarão lhe rasgava menos a córnea do que o par de olhos a sua frente.

- Não entendi o que você disse.
- Precisa que eu fale mais alto? Quando vai tirar essa roupa?

O tom era incisivo, alguns escutaram. A expressão no rosto dele, a levava para bem longe da feição trivial da garçonete que seguia esbarrando as ancas largas em seu cotovelo e para bem perto do açougueiro de confiança de seu pai, que cortava uma peça de costela com a fúria equivalente ao prazer de cada talhada.

- Enlouquecestes? Quem lhe dá o direito de falar assim comigo?
- Tu mesma, através das tuas insinuações!

Pasma, atordoada, ainda incrédula, sentia algo lhe correr no cerne para estalar no rosto. Justo ela, recatada como era? Justo ela, que jamais havia tomado a iniciativa frente ao interesse em um homem? Ela, se insinuando? Não, jamais. Ela, nunca. Já prestes a se levantar, ele tomou a frente da menção lhe impedindo a passagem com a mão, indo de encontro com a dela. Segurando-a, disse :

- Espere!

Embora um leve rastro de tenuidade na voz, o olhar era o mesmo. Fixo, indiscreto, quase um estuprador de suas pupilas. Ela, uma moça de existência. Haviam tantas e tantas da outra laia. Ela, que não se contentava apenas com o nome de batismo ou do que se resolvia batizar. Ela que prezava por respeito, intimidade, tudo o que não tinham. Ah não, ela não. Ela queria gritar. Lhe queimar o rosto jogando-lhe o capuccino pela metade.

- Não te deixo sair daqui sem uma resposta! Ainda não entendeu a pergunta?

Sentia tudo que pulsava ao mesmo tempo. O que continha, ali parecia acordar. As maçãs rubras da face denunciavam o misto de vergonha e revolta, sem saber qual das duas lhe tomava em maioria. Como um raio, tudo aquilo que nunca dissera antes lhe correu pelo tubo-digestivo. Não trancou, quando viu que chegara até a garganta.

- O que pensa que eu sou? Qualquer uma? Pensa que sou como essas mulheres com quem te envolves? Pensa que sou garota de uma noite? Que tu vais comer e cuspir fora, feito caroço de azeitona? Ah não, meu caro. Eu não. Nunca lhe dei a liberdade para falar dessa forma comigo. Nunca, está ouvindo? Vocês homens não prestam. Vem uma mulher e só pensam em uma única coisa: sexo. Nada mais que isso. Selvagens! Exijo que se desculpe, antes de me levantar daqui para nunca mais olhar na tua cara!

Ele permaneceu a sua frente, e voltou a tocar a mão dela, prontamente retirada. Uma curva entre os olhos dele, advinda da testa franzida, lhe completavam a feição. Desta vez, a perplexidade lhe embasava a retina. Alguns minutos de eternidade em silêncio. Sem desviar o olhar, lhe falou calmamente.

- Não estava me referindo a sexo. Perguntei quando tu vais tirar esta veste que usa para o resto do mundo, e se abrir comigo. Desde a primeira vez que eu te vi, quero te encontrar mas tu não deixas. Tem sempre uma palavra, um sorriso insincero, uma fala vazia na tua frente. Mas algo em ti insinua, algo que não sei quando abre, mas sei quando fecha. E esse algo me diz que tu precisa da pergunta para fazê-lo. Queria apenas poder te enxergar como és. Queria que pudesse te mostrar, como se nunca antes tivesse feito e te machucado. Queria poder te conhecer sem artifício, sem vestimenta, sem máscara. Este sou eu. Muito prazer.


...
...
...




Relacionamento aberto. Topa?



Olha, meu bem. Nós temos que conversar. Sim, eu sei o quanto a gente se gosta em ordem sempre crescente, quanto nosso encontro tem o raríssimo poder de parar o tempo e tua presença, o surpreendente efeito de me trazer mais calma. Surpreendente é a palavra que define um bocado de coisas sobre ti. E isso é bem complicado nesse mundo de iguais.

Eu sei também que o mais natural agora seria considerar tua requisição de oficialidade e titular o cargo. Mesmo por uma questão prática, porque essas definições civis ou pré-civis não têm importância alguma para mim. Mas assim poderíamos abdicar do malabarismo de conceitos que o mundo parece exigir, ao referirmos um ao outro. “Quem é ele(a)?”. “Ah, minha... amiga.” “Rolo”. “Ficante”. Termos dolorosos estes. Meu namorado e/ou minha namorada. Fim de papo.

Um “porém” existe, no “entanto”. Para isso, teremos que fazer um contrato prévio. Realidade posta, devo confessar que tenho uma necessidade um tanto quanto inusitada, e não sei se tu vais aceitar. Sei que é diferente, meio moderninho ou mais velho que o mundo. Sei também que é preciso coragem além da conta para permitir isso. Entendo perfeitamente. Mas preciso te pedir, porque sem este detalhe não dá, espero que tu entendas também.

Além de te namorar, eu quero ter um caso com vários homens. E algumas mulheres. Pronto, falei. É bem isso, diretamente falando. Não tem como introduzir de outra forma. Mas não acaba por aí. Tem mais, e consiste na parte mais difícil. Não só eu quero que tu aceites meus casos “intraconjugais”, mas que tu mesmo me apresente a cada um. Isto porque tu já me apresentaste para alguns extremamente interessantes, e então penso que tu podes, além de ser meu namorado, ser uma excelente via de intermédio. Será que isto te soa muito estranho?

Eu quero ter um caso com menino que mora aí dentro. Esse que quando fica doente, corta o dedo, tem dor de cabeça, de barriga ou outra qualquer, fica completamente regressivo, assustado e manhoso, mesmo que jamais confesse, sempre jurando que realmente se sente pela hora da morte. Tenho um instinto materno para nutrir.

Quero ter um caso com teu lado feminino, que dá palpite nas minhas escolhas, indo das cores dos vestidos até as que podem mudar meu futuro. Que adora conversar, e tem sensibilidade para ouvir até o meu silêncio, indo além da competência pragmática. Pode ter o tal instinto materno também, porque muitas vezes o “menino dramático” sou eu.

Quero ter um caso com teu lado homem mais velho, que me ensina sobre a vida, que saiba coisas que eu não sei. Que critique a minha inconseqüência e impulsividade. Que me lembre que precocidade não é sinônimo de maturidade. Que ostente o prazer sem ressalvas, moralidades ou preconceitos.

Quero ter um caso teu lado adolescente, idealista, sonhador, inconformista, em constante transição. Esse que ainda não cansou porque esta apenas começando. Com um tanto de ingenuidade, um tanto de romance, mente agitada, corpo pulsante, sorriso escancarado, passo largo e peito aberto. Tenho uma inquietação crônica para dividir.

Quero ter um caso com teu lado artista, que como cegos e crianças, enxergam no escuro. Que faz milagres. Cuja própria retina incide em um portal entre o mundo dado pelos sentidos e consensos, tal como ele não é, e o mundo das estrelas distraídas, das cores essenciais, das verdades circundantes, dos verbos transcendentes, dos outros universos.

Quero ter um caso com teu lado feminista-pero-no-mucho. Contra os assédios execráveis pelas ruas, os preconceitos a respeito das capacidades intelectuais, filosóficas e políticas das mulheres, contra a condenação das saias, mercado de trabalho e divisão de tarefas, mas a favor das diferenças evidentes de gênero, sabendo que cabe ao homem assumir a direção numa viagem, as lâmpadas queimadas, e as latas de conserva.

Quero ter um caso com teu lado espontâneo, que dê risada quando não pode, que fala o que pensa mesmo se for qualquer bobagem, porque bobagem falada não é besteira. Esse lado que se arrisca, que petisca, que não ensaia, não faz pose, não sobe no palco, canta no chuveiro, me convida pra dançar na sala, se lambuza tomando sorvete, se declara em público, que não teme a exposição e acha que ridículo é seguir a regra e que estranho é parecer normal.

Quero ter um caso com teu lado homenzinho, que bebe cerveja com os amigos, xinga vendo futebol, acha que encontra o caminho sozinho, joga bola nas quintas, lasca o joelho, pede cuidado, não encontra objetos que estão a poucos palmos do nariz. Que me faz andar do lado de dentro da calçada, e faz de conta que presta atenção quando eu falo nos efeitos maravilhosos do último creme que comprei pra pele quando na verdade esta tentando pressagiar os possíveis placares dos jogos do Brasileirão, para ganhar o bolão de apostas entre os camaradas.

Quero ter um caso com teu lado tranqüilo, que encontra felicidade em balanço de rede, som de violão, fruta colhida do pé, ar gelado da serra, barulho das ondas, uivo de vento. Que faz amor sem pressa, beija sem intenção, que toca meu braço e põe meu cabelo atrás da orelha instintivamente quando eu conto do meu dia, que me diz que vai ficar tudo bem quando me abraça forte e me lembra que já estamos distantes de tudo.

Não quero que fechemos a nossa relação em conceitos ou exclusividades identitárias. Quero um relacionamento aberto. Se amor não for amor-livre o suficiente para que a gente possa ser, então vamos ter que chamar de outra coisa porque amor não é o nome disso. Em suma, eu quero todos. E todas. Quero conhecer teu inteiro e te apresentar o meu. Quero ter o teu inteiro, e poder te dar o meu. Topa?





* Foto de Ritinha, que apropriadamente também atende por Rita, Ana Rita, Babaloo e também se permite viver a pluralidade de si.



Caminho das Pedras



Sob a enorme pedra da palavra que encera um assunto, existe uma pluralidade de vocábulos, discursos, expressões, verbos, sujeitos e predicados esmagados. O diálogo empedrado referente consiste em: “Oi, tudo bem, o que andas fazendo?”. Geralmente é seguido por: “Oi, tudo e contigo? Ah, o de sempre, estudando, trabalhando”.

A pedra se chama cordialidade posterior. Ao que? Varia bastante. Não pretendo responder, então petrifico assim. Levantando-a porém, encontrarias a seguinte resposta:

Como tudo pode estar bem do jeito que as coisas estão? E mesmo que assim não estivessem, ainda teria fome no mundo. Então não está tudo bem, nem jamais estará, pelo menos no prazo que se estende do meu nascimento a minha morte, depois não sei.


Ando fazendo uma porção de coisas. Continuo pensando em ti todos os dias. Sinto tua falta um tanto. Reencontrei-te por um triz para desencontrar tão depressa, que tempo anti-horário foi esse? As vezes te procuro na memória, porque tem traços bem singelos do teu rosto que a ausência já me anda embaçando. Sabe como diz a música, “o esforço pra lembrar é a vontade de esquecer”.


Continuo fumando meus cigarros de cereja eventualmente, tentando comer bem regularmente, treinado assiduamente, lendo compulsivamente, arriscando inconsequentemente, sentindo exageradamente e trancando o choro que toda noite vem me visitar em forma de insônia.


Sigo tentando me convencer que o não teve inicio nem fim simplesmente não existiu, e sou tão quase boa na argumentação quanto na arte da negação. Permaneço inconformada com o esvaziamento da nossa geração, temendo muito me perder a ponto de me acostumar.


Continuo cantando todo dia, independente do meu humor, o que varia é letra de canção, O violão que sabe. Sigo escrevendo e estudando todos os dias. Tenho pintado e desenhado bem menos do que gostaria, inspiração nunca falta, o que falta é calma. E gosto de ter, para tal. De onde ela vem mesmo? Sim, voltei a escutar Los Hermanos infatigavelmente.


Ando com medo de uma porção de coisas. De ser cais que nunca recebe a chegada. De ser navio que nunca encontra o porto. Ou de continuar sendo oceano, que tanto abriga, mas tanto revolta. De ser “estanque, como quem constrói pontes e não anda”. A juventude passa tão rápido, e desde muito cedo sinto o desgosto de vê-la arrancada de mim. Nos últimos dias anda me assombrando ainda mais.


Minha alma continua tão ou mais inquieta como da última vez que nos vimos, minha mente idem. Meu coração anda aprendendo sobre reciclagem e desenvolvimento sustentável, mas continua com déficit de atenção. Sigo em forte crise existencial e minha intimidade casual com a filosofia tem piorado bastante o quadro.


Continuo lutando contra mim. E por vezes me vejo correndo atrás da cenoura, feito o burro de carga. Continuo levando tristeza nos olhos, aperto no peito, e por vezes me sinto insustentavelmente leve de tão pesada. Tão inundada que emudeço. Mas bem sei que o que fala meu silêncio é língua morta, quase ninguém traduz. Talvez ninguém mais além de ti.

Pactuemos então, e deixemos as pedras quietinhas. Tudo bem?

Homem de verdade!




Tem certas coisas que você nunca verá um homem de verdade fazendo, pensando, escolhendo, aceitando, sentindo, ou mesmo tentando por em prática qualquer uma das alternativas anteriores. Mesmo que constitucionalmente não exista um Código de Conduta oficial do homem de verdade, pergunte a qualquer machão sobre o comportamento e ele terá na ponta da língua frases começadas com “sempre”, “geralmente”, “quase nunca” ou “jamais”.


Por exemplo, homens e flores. Os de verdade tem uma relação intencional com as flores, que se resume em comer uma mulher. Então, utilizam do recurso abarrotando floriculturas, carregando discursos prontos e manjados para preencher um cartão cujo texto não vai distanciar dos adjetivos “linda”, “querida”, com  predicados como “adorei te conhecer”. Agora, plantar, admirar, fotografar, ter em casa, saber distinguir diferentes espécies de flores, “jamais”. Não é coisa de homem de verdade.


Tem certas coisas que um homem de verdade jamais aceitaria de uma mulher em um relacionamento. Que ela tenha registro virtual (orkut, msn), a não ser que mencione explicitamente que é comprometida. Vida social também não é bem vista. Algumas amigas igualmente comprometidas são admissíveis. Solteiras não são bem vindas. Amigos de sexo oposto, inaceitáveis. Sair sozinha, com a amiga comprometida para tomar um café no final da tarde, tolerável. A noite com as solteiras, jamais.


Ter opinião também. Porque escutar opinião de mulher? Sua mulher é a conquista que já prova que ele é o “cara”, ora. Aquelas que pensam muito já dão problema. O mais conveniente é que não sejam muito inteligentes, ou pelo menos, incapazes de calcular o QI deles com a facilidade com que fazem com calorias.


Sobre comportamento, tem certos mandamentos teóricos facilmente observáveis na prática. Por exemplo, a atratibilidade de uma mulher é definida pelo tamanho de seus membros inferiores, glândulas ou próteses mamárias. Todo par de pernas a mostra, decotes, ou roupas justas devem entrar em seu campo de visão, e toda mulher gostosa deve ser comida com os olhos (ou com outro membro), independentemente de estar ou não acompanhado ou comprometido. Largar cantadas pela rua, baladas, caçar na academia, na faculdade, até no supermercado, são perfeitamente habituais.


Negar fogo a qualquer mulher que queira lhe ceder o corpo é incabível, manda a lei dos homens de verdade. Em termos de sexo, preliminares existem automaticamente porque as revistas ensinam que fazem parte e macho de respeito tem que ser bom de cama (na fama principalmente, muito mais importante). Comedor. Pegador. Nada de muita trela, dormir abraçadinho, conversar depois da transa. Sentimentos em penetração? Impenetráveis.


A matemática é simples, regra de três: futebol, mulher e cerveja. Sendo ou não nessa ordem de importância. O que os homens de verdade encontram são mulheres de verdade, essa é a verdade da história. Quem? As tristes, as que usam sexualidade pensando em “garantia” de futuro, as muito inseguras ou de baixa auto-estima, as completamente passivas na relação e bastante ativas nas baladas, as que tem o tamanho do glúteo inversamente proporcional ao do cérebro, as que classificam o quanto um homem é interessante pela potência do motor de seus carros e renda mensal. Ah sim, e as desesperadas.


A verdade destes homens de “verdade” consiste em provar ao mundo sua própria virilidade. Filosoficamente, verdade é aquilo que se tem como realidade. Portanto, prefiro manter distância da amostra representacional e lamentavelmente real. Quero um homem “frouxo”, que se afrouxa das amarras de conduta, esses que se soltam. Que sentem, que gostam de filmes, livros, com assuntos e interesses mais nobres, que saibam conversar e escutar. Que não acham que passar segurança para uma mulher equivale a ter voz firme, ordem e falta de progresso. Os que choram. Que tem bíceps hipertrofiados de tanto remar contra a corrente.

Quero os que se arriscam ao ridículo. O ridículo de se apaixonar, de largar um “eu te amo” ao telefone na frente da turma do Bolinha. Os que fazem amor. Um original, sem limitações, desses que te deixam expelindo poesia pelos poros. Quero um homem fora da lei, contra-regra. Quero os rebeldes, os transgressivos, os inconformados, os que não se acostumam, os marginais do código geral.


Dispenso os que podem confundir minhas coxas com a de outras moças, e me mostrem toda dor. Quero os que encontraram ideologia pra viver, que descobriram o que é força, coragem e caráter de forma autodidata. Procuro aqueles que colocam em xeque a teoria darwiniana, trocando a suposta evolução por revolução. Que saibam se inventar e reinventar. Os homens de “verdade” eu passo, deixo para as mulheres de “verdade”. Ou da grande realidade, o que dá na mesma.

A hora da Partida





Fiz um pacto comigo. O de escrever este texto até o final sem chorar. Um desafio a tudo o que aqui dentro ofega, ergue, lembra, cursa, agita. Justo eu, que conheço tão de perto a partida. Essa sem ter planos e de poder voltar quando quero. Mas tem um problema sério, que se chama eco. Explico.

Uma das coisas mais tristes na vida, é encontrar alguém que te faz crer que existe um eco no mundo para tudo aquilo que te enlata o peito, te transborda pelas palavras por que nelas não cabe, te descolore de sonho em carga diária. A promessa de que há, mas não vem. Aquele quase, aquele perto, aquele um pouco antes, um pouco depois, você nem sabe mais onde no tempo. Aquela saudade imensa que fica de tudo o que não se viveu. Isso é uma das coisas mais tristes na vida.

No caso presente, o problema foi ter encontrado o eco ressonante, um irmão de existência, um bicho como tu, ter sentido o peito desentupindo, a palavra cheia e já desnecessária e a vida à cores de arte surrealista. A vivência de que há, de que veio. Aquele todo, aquele encontro, aquela hora exata, aquele além de tempo e espaço. E ele partir, para deixar aquela saudade absurda de tudo o que se queria continuar vivendo.

Mas isso é pequeno. Grande é tua existência ter feito marca na minha de forma tal que eternizastes a ti mesmo em mim. Grande é tua liberdade em ser do mundo, de voar alto, de desprender-se, de arriscar. Grande foi tudo que tu trouxestes e que vai ficar presente na tua ausência, sacramentado na minha vida e em tudo o que dela parte. O efeito se vê ao redor.

Poucos são os que sabem o que fazer com as próprias asas. A saudade é só um lado da mesma viagem, o mesmo trem que chega é o que parte. Obrigada por tudo! Meu mundo tu já marcastes, agora é o outro mundo que te aguarda. De qualquer forma, sempre esqueceremos do mundo quando nos encontrarmos, mesmo que por vias metafísicas. Vou acabar antes de quebrar meu pacto inicial comigo mesma.

Avesso




Depois da escuridão vem a luz. Mas a luz, como tudo, tem no mínimo duas faces. Ou clareia-te os passos, ou te cega inospitamente. Cabem aos roteiros de universos limitados o ato performático de bom ou mal. Vida real meu bem, ah, isso são alguns poucos minutos por dia. O resto é o que faz parte do script. Te tornastes o escarro aleatório da tua própria crença, e o que me parece desprezível é que te contentas em servir à isso, mesmo que – por motivos óbvios – tu negues.

Ah, se tu soubesses do que eu abdicaria ou renunciaria, caso pudesse, só para assistir florescer em tua face um sorriso mais calmo. Como foi que deixastes o mundo te corromper de tal forma que acreditastes que o que se vê é tudo o que é possível de ser visto? Quem conseguiu te convencer que o melhor cálice é aquele onde não se bebe? Se eu pudesse, alimentaria o que resta de fome nos teus olhos com ainda mais fome, para que nunca mais deixes de enxergar como deveria. Mas enterrastes minha onipotência com uma grande parte tua.

Veja como a cena se repete, insistentemente. Nascemos com tanta vida para padecermos cada vez mais, a cada dia. Tudo do avesso. Lembro-me das coisas mais formidáveis, as simples. Tuas mãos sempre em concha segurando a enorme xícara de chá enquanto o frio estourava ao lado de fora e nublava a janela álgida, com um olhar tão tenro que derretia as geleiras que eu trazia do mundo em mim. Esses mesmos olhos que me espiavam por detrás de algum livro, quando me via voltar pela noite, com as dores da rua, com poesias colhidas, com a arte lanhada, com a gradação dramática. Nunca precisamos de palavras.

Estes olhos eram a minha casa cheia. Eram estes olhos que me adentravam pelo peito, e me traziam de volta do anestesiamento, dos venenos, das pulsões de morte, e são a estes mesmos olhos que me remeto quando o chão se escapa dos meus pés, quando o mundo congela, quando a gravidade me esmaga. Sabes bem que entendo do escuro. Sabes bem que fui tão mais além, até do que pretendes ir. O que não sabes é que volto e te rastreio os passos. O que não sabes é que vou ao inferno quantas vezes for preciso, e que conheço mais atalhos que tu.

Enganas-te. Não pense que é coragem se jogar assim. Só se joga quem tem medo. Coragem é se desatar das amarras. De mim jamais terás a piedade que finges esperar. Eu desisto, no dia em que te olhar nos olhos e não mais te encontrar. Eu desisto quando a minha frente, avistar um par de olhos vazios, sem resgate. Nesse dia sim, o fim virá para mim também. Enquanto ainda ver história em teus olhos falantes, enquanto teu silêncio seguir em nada calando, enquanto escutar no eco do vento teu choro, não desisto. Te desafio a voltar. Te desafio a sentir. Te desafio a viver.

Esse monstro de olhos verdes...




Ah, querido. Funciona assim. A gente tem umas feridas primárias, dessas que, ou a gente vai limpar pra sarar, mostrando pro analista que as raspa com lamina afiada e joga álcool por cima, ou vai passar o resto da vida se relacionando a partir disso. Toda ferida aberta funciona como lembrete. E tudo o que se aproxima, já vira repulsa instantânea, defesa do corte que já se tinha. Não fostes tu quem o fizeste, mas remexes e me lembra que ele existe.

É querido. Mas é como o veneno homeopático que adentra na veia do braço exposto ao soro, e amarga-me os órgãos. É como um envolto negro a me abraçar, cegando-me os olhos. É o que desafia-me a razão e o juízo para lançar-me em queda livre no lado escuro do medo, da cólera, amnésica do bom senso por ter ultrapassado o portal do recurso primitivo. É quando meus seis pecados outros se revoltam e firmam guerra a tua cobiça.

Não querido. Eu sei que você me ama, me deseja, e não me trai. E sei que abordagens ou cortejos não lhe hesitam. Mas entenda. Eu preciso de mais, quero tudo, quero todos os olhares e desejos, quero tua ação solitária, exclusividade em teu pensar. Quero que todos os teus lados, como uma multidão formada e reunida em um só homem, a mim se voltem. Teu globo ocular carrega todos os olhos que desejo apoderar.

Sim querido. Sei que sou bela, e esperta, e formosa aos teus olhos. Entenda, não é problema de auto-estima. Ou é. Mas não de falta. É de excesso, querido. É algo que me enforca na pergunta “mas como”? Como não és em teu desejo mais secreto, inteiramente voltado ao meu ser? Como pode existir espaço para qualquer outra em tua imaginação que não eu? Como o corpo alheio te pode guiar os olhos em minha ausência? Eis o mal que me consome.

Não, querido. Não precisa ser real. Imaginário também. Pode ser a do filme, a da revista, a vizinha que todo garoto sempre quis ter, pode ser qualquer coisa que tenha seios, e glúteos, e panturrilhas, e belas pernas, menos de 1,80 de altura, voz feminina, rosto delicado, e pés pequenos. Eu entendo, querido. Eu sei que tu não queres outra, mas querido, eu quero todos os teus outros.

Eu vejo querido. Então, digamos que minha ferida é narcísica. Uma delas ao menos. Dor de filha mais velha que quer ser única em pelo menos uma coisa na vida. É corrosivo do meu próprio amor. Prefiro então minar a terra e secar o plantio a tempo de não ver brotar nosso jardim em terreno vizinho de outras flores. Deixo-me esquecer de tudo que me importa então, para que meu ego se proteja do aniquilamento, mesmo que nem para ele importe mais.


Querido?
...
Querido?
...

Onde estão teus olhos?


Dadaísmo ao Moralismo






Julgaram a saia, a moça, e as coxas, o Cristo e o Anti que é pai de todos. Todos por um, um por ninguém, mas a priori é ordinária. Comum mesmo é o mais barato. O vulgar custa caro. Eu espero não crer na descrença, que é de onde toda crença parte. Credito a palavra e o gesto, mesmo sabendo que não há crédito algum. Se espero já tenho esperança. E esperança é a corda que todo desesperado se agarra na última das circunstâncias.

Deixo passar, mas o que passa? E o que se passa? Eu me passo, sim eu sei. Mas nem sei nada, sabendo tudo. Se tem algo que o mundo fala é falácia! Se tem algo que eu não escuto é o que o mundo a fala. Mas de que mundo venho? Estou quase certa que eu não sou daqui. Mas se cá estou devo ter algo em comum com a priori ordinária, com o mais barato e com o vulgar, e deve vir desta conclusão a esperança.

Mas e a moça, e a maçã, e as coxas? Vão tão bem que não vão nada bem, é o que dizem por aí. Aí e lá, e lá ou acolá vem do além, lá de onde eu venho também. Então é tudo aqui. O fora é dentro, e o dentro é fora. Um quadro cíclico. Círculos enganam bem. Por isso o mundo é redondo. É cada um no seu quadrado, não é? Mas e os seios, e as fogueiras, e as bruxas, e os desejos?

Quem são eles? Que homens são tão homens? Que mulheres são tão mulheres? Demasiadamente humanos? São tantas perguntas erradas, de respostas certas. São tantas perguntas certas, de respostas erradas. Quem vive de sedução é a fruta podre que caiu da árvore, e tenta convencer o colhedor de que é melhor que a do topo, ele finge que acredita e come. Os livros evolucionistas nada evoluem. Existe um mundo além da reprodução e da sobrevivência. Com tanta hipocrisia, em que saia-justa nos metemos.

Cansaço é o que resta quando a esperança falha. Cansei de ter esperança. E agora, como faz? Faço certo pelo errado, o vento trás a direção. É o que ouço pelos cantos, que descubro nesses tantos desencantos. O que mais confio é na desconfiança que sempre tive. Anti é aquilo que se prega na moral. Cristo!

Metamorfose





Não sei dizer exatamente como foi. Sei que não foi de um dia para o outro também, disso tenho certeza, devido à complexidade e grandeza da questão. Acontece que parei de juntar meus cacos. Parei simplesmente. Percebi que aqueles cacos que tanto me empenhava em juntar remontariam uma sósia assustadoramente remendada do que eu já fui.

Cansei também da auto-piedade, a gente tem tanto dó da gente mesmo que chega a chorar, um absurdo. Desisti de remoer a busca imóvel por tudo aquilo que estava em algum lugar que eu nunca tive acesso, mas que por saber que existia, perdia todo o tempo do mundo procurando. É preciso desistir de certas coisas, para não desistir de si mesmo.

E era preciso abrir mão de quase tudo o que eu acreditava sobre mim. E fazê-lo sem referência alguma já é o retrato do desamparo. Se não tinha referência nem em mim mesma, partiria de onde? Que assim seja, invento o novo. Se seria uma grande mentira ou não, já não importava mais. A verdade em si não deixa de ser uma questão de fé. Grande parte da verdade sobre algo ou alguém existe porque alguém crê, a existência sem crença torna o reconhecimento da verdade inacessível.

“Um troço qualquer morreu”. Sem direito a ressurreição, reencarnação, ou reclamação. Se isso se perdeu no passado, não existe. Mas falo de mim aqui, ao contrário do Cazuza que velava o “entre”. Se o que fui estava morto, o que me restou foi perceber que estava viva. Tinha o dever de construir uma nova obra de mim mesma. Teria que me reinventar. Criar mesmo. Se não sou do tipo que faz releituras ou réplicas de obras, seria contraditório fazer isso comigo.

Onipotência a minha? Ora, se eu não me governar, nem de Deus mereço respeito. Defina-me. Decifra-me. Já devorei todos que tentaram. Cansei. Voltei a questão a mim, e tentei também. Acabei por me consumir. Mas não é essa a beleza afinal? A possibilidade de ser ou não ser? Já não sou mais tão criança a ponto de ser porque sou e pronto. E não sou tão adulta a ponto de ser pra receber em troca.

Já posso ser o que eu quero e manter a minha palavra. Ser fiel a si mesmo já é mudar o mundo.

Sorte no jogo?





Os dois eram tão ou mais espertos. Se encontraram por um presente daquilo que, por não se saber o nome, chamamos acaso. Ele um romântico disfarçado de canalha para não parecer otário, ela uma romântica disfarçada de realista, para não parecer ingênua. Cruzaram olhares, palavras e gestos, depois telefones, línguas e sonhos, esses últimos é claro, cada um pra si.

Tinham várias coisas em comum, dentre elas, a juventude, um histórico de desilusões, o medo de serem feitos de idiotas, e o bem-querer um pelo outro. Ela era bela, dessas belezas bem raras, com capacidade de iluminar o vazio escuro de uma balada vulgar. Ele guardava relíquias no peito e nos poros, e possuía um ar de tristeza boêmia onde qualquer bom espectador poderia colher de suas pegadas o rastro de poesia deixada para trás, em cada passo.

Ele se acostumou a fazer sexo seguro, sem risco de afetividade. Ela, a negar fazê-lo. Nenhum dos dois virou robô da juventude esvaziada, mesmo que resguardada e protegida ambos ainda carregavam a verdadeira existência no íntimo. Mas não, nenhum daria o braço a torcer. Mulheres gostam de homens que não lhe encham o ego. Homens gostam das mulheres difíceis. Ambos eram convictos de que pertenciam a planetas distintos, Marte e Vênus precisamente, guerra nas estrelas.

Então ele não ligou no dia seguinte. Prometeu que ligaria, mas esperou até o sétimo, numa estratégia bíblica de construção de mundo. No primeiro dia, o nascimento da interrogação. No segundo, o palpite das amigas. No terceiro a busca por defeitos próprios. No quarto, pelos dele. No quinto a lembrança de tudo que não é, e por isso já é triste. No sexto a desesperança. E no sétimo então, nada descansado, ele liga.

Ah não, mas claro que ela não atende. Afinal de contas, ela não é fácil, não é qualquer uma, ela é ocupada, ele não é o único que a deseja, ela tem vida, a artimanha falhou. Ele tenta de novo, e ela com o celular na mão como se fosse coração, deixa que pulse. Trim-trim, tum-tum. Nem aí. Agora ele vai ver o que é bom. E agora ela vai ver que não sou um idiota qualquer.

Ambos pediam para não caírem na tentação do mundo online. Como é difícil manter o falso desinteresse quanto a tela grita acessibilidade à vida alheia. Maldita era da comunicação quando a proposta é não se comunicar. Ele não visitava o orkut dela, para que seu nome não ficasse gravado. Ela visitava o dele, depois de ter trocado a configuração de visitas. Ele entrava no MSN, e o coração dela saltava aos olhos. Bastava ela entrar para que ele sentisse lhe congelar o sangue. Mas nenhum seria louco ou tolo o bastante para ofertar a primeira palavra.

Quando encontravam uma desculpa ajustada para que o descaso não corresse valo abaixo, ela se preocupava em opinar de forma inteligente usando chavões teóricos, ele, em desfazer suas opiniões. Concorriam em quem via mais filmes cults, lia mais ou menos Platão, ia mais ao teatro, entendia de arte Renascentista, ou sabia sobre o lado B dos grandes gênios da literatura. Ela se perguntava se a analogia dele sobre os pré-socráticos falava algo sobre ela. Ele tentava juntar os quadradinhos da ultima imagem de Picasso que recebera por e-mail, na busca por alguma via estética de dizer que ela o queria.

Sempre que ele ligava, o celular dela estava fora da área de cobertura ou temporariamente desligado. Ele nunca podia falar naquele momento, e perguntava se não poderia telefonar depois, coisa que jamais faria no mesmo dia. A despeito do inexistente acaso inicial, seguiam forjando desencontros intencionais. Tudo em nome do jogo. Passaram-se meses de silêncios forçados, desinteresses fingidos, descasos maquinados. Passou do ponto. “Não era pra ser”, ele disse. “O que é meu está guardado”, ela pensou. Nunca ficaram juntos. Eram bons jogadores, e quem tem sorte no jogo paga o preço do azar naquilo pelo quê se joga. Ou no único saldo que valeria, no fim das contas. Eu canso de ver tanto amor jogado fora.

Entre crianças e filósofos




Eu preferia morrer à perder a curiosidade infante-filosófica-nata, e viver “sobrevivendo” em conformismo apenas. Lembro-me de quando meu pai me explicou frações matemáticas com pizzas. Até então, elas pareciam ininteligíveis. Ele pegou a pizza, cortou em 6, pegou uma, deu uma mordida e apontando para o pedaço de pizza ainda de boca-cheia, sentenciou: “eis um sexto”. Ah, era isso?

Não lembro minha idade exata, menos de uma década de vida, com certeza. Lembro de ter matutado na minha mente juvenil: “a matemática nada mais é do que uma forma de representação do mundo”. Conforme os cálculos se complexificavam, minhas perguntas iam seguindo as leis da multiplicação, incluindo ai indagações acerca das próprias limitações matemáticas. Desde aquela época, já existiam as crianças que decoravam as regras ensinadas, aplicavam-nas em provas e tiravam boas notas, e a esse processo se resumiam suas respostas e suas verdades.

E existiam as crianças, comigo inclusa, que faziam perguntas imbecis tais como “porque não é possível calcular um sentimento?”, ou que procuravam descobrir como fazer uma conta matemática por caminhos distintos, chegando ao mesmo resultado. O problema era que às vezes me perdia nas provas brincando disso, e depois de algumas delas tive que – pelo menos nas avaliações - me contentar em seguir o caminho chato, perigando repetir o ano.

Hoje analisando a cena, vejo o significado filosófico daquela curiosidade ainda instintiva, que toda criança tem. A matemática é uma representação, em signos, do mundo. Os números que compõem a matemática, são símbolos de tudo que é quantificável, e na matéria isso se torna prontamente observável. A matéria em si é dinâmica, sem a necessidade de intenção. Mesmo que sigam as leis da Física, fenômenos naturais ocorrem sem necessidade intencional, o que nos leva a concluir que a matéria é dinâmica por si mesma. Todo fenômeno físico pode ser convertido em números e explicado matematicamente. Se a matéria é dinâmica, ela nem sempre segue o mesmo caminho, linear, passo a passo, para o mesmo fenômeno. Porque então matemática deveria?

A história complica bastante se pensarmos na Ciência atual. As ciências em geral são todas filhas da Filosofia. O progresso da Ciência, nada mais é, do que respostas às perguntas daqueles que ainda fazem perguntas, com o perdão do pleonasmo. Mas e quanto àquilo que não é passível de quantificação? Aquela minha inocente pergunta “imbecil” era um raciocínio que fugia da lógica formal. Mas ainda vivemos a dialética marxista, e quando não, somos tão cartesianos que fragmentamos o sujeito em corpo e mente, e só nesses dois hemisférios encontramos um sem-fim de especializações, cujas tentativas são tão limitadas quanto nosso vão conhecimento.

Você tem problema de visão e comenta isso com um amigo médico. Só que seu amigo é gastrologista. Ele lhe encaminhará a um oculista. Você vai ao oculista, e ele descobre que seu problema existe devido a diabetes e assim você sai de lá com indicação a um nutricionista e um endocrinologista, no mínimo. Vai cansar de esperar sentado na salinha de espera como é de costume, até sentir dor na coluna, e será encaminhado para um fisioterapeuta. Chegando neste, vai ter um chilique porque ninguém parece poder lhe ajudar em seu problema, e ele lhe indicará um psicólogo. Você vai até o psicólogo, já com um nível de estresse tão grande que começa a sentir fortes dores no estômago, desconfia de uma úlcera e comenta com o psicólogo. Ele vai te mandar para um gastrologista, e então você vai bater na porta do seu amigo do inicio da história, e lhe perguntar qual é afinal, a finalidade das ciências da saúde? “A própria saúde ué”, ele provavelmente vai lhe responder escrevendo sua receita de remédio pra úlcera e achando que você é um “tapado” completo. Behavioristas, expliquem como funciona o condicionamento. Sim, espeto vocês também.

Vejam as “descobertas” dos gênios da história. São óbvias, vide a gravidade por Newton, através da simples queda de uma maça da macieira. Mas só se tornam “óbvias” depois de terem sido constatadas. E apenas o foram, porque alguém arriscou sair da lógica comum, e lançar aquela perguntinha que toda criança faz o tempo todo: por quê?

Já conversaram com alguma pessoa absolutamente convicta de algo? Vejam como as certezas são frágeis, a ponto de serem defendidas com unhas e dentes. Não existe estupidez maior do que atrelar-se as próprias verdades, se contentar com as realidades que lhe foram apresentadas, e cessar as indagações na primeira resposta que vier ou na própria conclusão empírica. Sábios são os que se consideram aprendizes, que perguntam e escutam. Medíocres já têm quase todas respostas. Mas estão entre os convictos os portadores da maior ignorância.

Bem-casados



Se Shakespeare estivesse vivo e assistisse a entrada de uma noiva em uma cerimônia de casamento atual, provavelmente puxaria um bloquinho durante o sermão do padre e passaria o tempo descrevendo-a com a mesma fibra de tempos remotos. Eis que esplendorosa, trajada do brilho lácteo e brancas sedas, pelas portas adentra em direção ao altar. Sob o olhar furtivo das donzelas, admirado dos cavalheiros, e hipnotizado dos querubins, flutua distribuindo em lampejas púrpuras o sorriso cintilado em marfim e quimeras de encantos de fadas.

A cerimônia de casamento é bela. Estive recentemente em uma e algumas coisas são rotineiramente observáveis. Reitero que aqui me refiro aos casamentos “moderninhos”, desses que se casam por amor, visto que aqueles a “moda antiga” ainda existem as pencas. Dentre a turma high-tech, toda noiva em dia de casamento é bonita. Todo noivo sua o colarinho de nervoso, no momento prévio ao altar. Toda noiva entra triunfal na Igreja, e todas elas tem um sorriso tão gracioso e aberto, hora com covinhas abaixo do brilho dos olhos, hora com a meiguice das bochechas rosadas, os cílios curvados, e o coração entregue.

Todo o noivo desfaz-se da tensão e da testa enrugada, ainda atordoado de tanto ter andado em círculos ante os convidados na espera, abrindo em reflexo o mesmo sorriso puro ao vê-la, dividido entre o menino impaciente que aguarda o dia de Natal para abrir seus presentes, e homem que espera tão mais impaciente pela hora de reafirmar seu amor à mulher de sua vida. E frente a estes dois, a única coisa possível a se desejar no íntimo, é que sejam felizes.

Eis que então por praxe cerimonial, chega a parte do juramento. A jura, todos sabem, vale até que o silêncio, ou o tédio, ou as crises existenciais, ou a própria convivência, ou tudo isso junto, os separem. O que é a própria morte. Não da vida, mas da relação. O artifício do juramento, no entanto, me incomoda tal como me incomoda toda e qualquer fala ensaiada, não espontânea. Mas esta em especial, não apenas inclui a categoria, como está incompleta, deveria ser repensada e reescrita.

O problema está em seguir a tradição. Ligadas ao valor da propriedade, à conquista das terras e aos acordos políticos entre a nobreza, o casamento era essencialmente um ato de aquisição, moda que teve inicio marcado na Roma antiga. Confundir casamento como conquista de vida é uma armadilha. Eu me formei, plantei uma árvore, fiz algum bem ao mundo, consegui uma colocação melhor no meu emprego, e me casei. Seguir conquistando, em movimento contínuo é o que demanda a sobrevivência da união de escovas de dentes. Frente a isso, talvez outros pormenores deveriam ser indagados ao noivos.

Primeiramente, se concordam em jamais terem neste dia um marco de garantia da presença do outro, retirando-lhes da responsabilidade de seguir conquistando seu parceiro dia após dia, sempre tendo em mente que nos tornamos eternamente responsáveis por aquilo ou aqueles que cultivamos. Aceitam? Também poderia estar incluso se concordam em respeitar o silêncio quando é preciso, assim como a liberdade e individualidade com a mesma importância que possuíam antes deste dia, mantendo independência um do outro, cultivando interesses, amizades, sonhos, aspirações e espaços próprios. Sim ou não? 

Acrescentaria ainda se ambos concordam em se esforçar para serem “artistas no próprio convívio”, trazendo um pouco de poesia para a vida escrita em tom de noticiário, um pouco de melodia para o tumulto das cidades, um pouco de luz para o escuro das noites, um pouco de luar para o meio dos dias. Se pretendem dar menor importância paras as toalhas molhadas sob a cama e os sapatos espalhados pelo chão e maior  para a singeleza dos pequenos atos, como a janta sobre a mesa, massagem no pé, cerveja no gelo, embalo de rede, cafuné antes de dormir, e bilhetinhos na geladeira. Ainda somaria jamais dormirem de costas com raiva um do outro, deixando que as discórdias se acumulem por preguiça de discutir a relação, e exercitando arduamente a compreensão, o companheirismo, a fala, a escuta, os beijos e abraços. De acordo?

Estes são pressupostos básicos de convívio entre um casal, mas a verdade é que não existe receita pronta, como a dos “bem-casados” que a gente leva de lembrança. São tantas outras milhares de coisas que compõem um casamento, seja ele na Igreja, seja em resolver dividir o guarda-roupas sem maiores cerimônias, que poderíamos entendê-lo como construção. Cabe ao casal, em nome do próprio amor, encontrar a rima, a prosa, e o verso frente a uma nova biografia, escrita ou reescrita a quatro mãos. Aos noivos, uma feliz inspiração.

Nua e Crua





“Enfim só.” Disse para mim mesma, ao chegar em casa à noite depois da aula, largar a bolsa em cima do sofá, me desfazer do salto e descer do pedestal. O ato de arrancar a roupa e entrar no banho chega a ser agressivo neste momento. É ali, no banho do fim do dia que a vida começa. Banho é simbólico. Começa no ato de despir-se, desfazer-se das vestes que elegemos a partir do código de civilidade. Se não existissem outros, não nos vestiríamos (no conceito objetivo ou subjetivo da palavra).

Noutro termo, ali posso relaxar ao ponto de ser mulher. Posso desconstruir, criar, cantar conforme a minha música. Posso ter todos os respingos de euforia e outros tantos de mágoa. Posso ter um arsenal desnecessário (mas fundamental) de hidrantes, cremes, shampoos e sabonetes de estrelinhas que se liquefazem em contato com a água e toalhas com cheiro de jasmim. Não preciso dirigir bem, não preciso provar que minhas coxas não invalidam meu cérebro, nem disfarçar que eu acho o caminho sozinha, nem que eu sou mais esperta, ou mais rápida, ou menos mole. Posso ser feliz sem justificativas. Posso ser triste sem fingir na hora de rir.

Isso aqui é “vida real”, penso. O que quero pra vida ainda não esta pronto para mulheres. No mundo, mulher tem que ter colhões, e o resto é falácia feminista. O dia em que deixarmos de queimar sutiã para fixar a morada no território que ansiamos possuir, eu mudo de idéia. O dia em que pararmos de receber adjetivos e abordagens execráveis pelas ruas, qual se fossemos reprodutoras potenciais desfilando pela selva, eu repenso. No dia em que pararmos de comemorar um dia da mulher e nossos sabonetes de estrelinhas, seios, glúteos e lombares não anularem no espectro alheio nossas competências intelectuais, talvez tenhamos algum progresso. Por enquanto, tem que ser macho mesmo.

Fingimos o dia inteiro, ambos os sexos. Olhe em volta, olhe no espelho. Por que nos olhamos no espelho diariamente? O que adotamos como recurso de traje, trejeito ou tragédia nada fala sobre quem somos, mas sobre quem queremos que os outros pensem que somos. E usamos para cada situação diferente uma identidade de cima desse palco chamado “vida lá fora”, que nada mais é do que uma peça sem diretriz, mal escrita, composta por uma platéia recriminadora e baldia chamada sociedade.

Mas vai fazer análise. Cai a máscara de gênero, de estado civil, RG, profissional, de boa mãe, de bom samaritano, cai a pose mesmo. E o pior: nem mais se atrelar em racionalidade defensiva se pode, tem que sentir a coisa a fórceps. O que resta? Tem que ter tanto peito pra encarar o que resta, que eu preciso da minha analista ali segurando a minha mão. Progresso, porque já admito que precise segurar a mão de alguém (por favor, isso é uma metáfora). Com a persona escoradinha ali ao lado do divã, pra qualquer coisa, só por garantia.

“É preciso coragem para ser você mesma”, me diz meu amigo Gabito. Porra, e como! Tem máscaras que de tão acopladas à face já moldaram-se aos nossos rostos. Essas tão seguras, tão mais fáceis, tão conhecidas, essas que carregam um pedaço da epiderme quando arrancadas. E tem que ser assim, violentamente. Tem que querer, fazer, e ser, violentamente. O mundo pertence aos que se arriscam.

Mas deve se estar preparado para que, ainda em carne viva, as pedras da “exposição” caiam às pencas em vossos telhados. Dá licença? É proibido chorar em ambientes fechados? É proibido sentir ou só assumir que se sente? Quando viveremos a espontaneidade no prestígio da palavra? Quando a hipocrisia moral dará lugar a ética? Quando seremos livres o bastante para sermos, e pronto? E quem você pensa que é afinal? Acha que engana alguém?

A noite de Eros






Pela forma como um homem pode contornar o corpo de uma mulher sem nem ao menos tocá-la. Através do olhar do desejo precoce e tardio, sedento por consagrar a exploração de sua essência feminina, ao inspirá-la e absorve-la em pele, deitada sobre os cúmplices lençóis de um quarto.

Sob domínio desse olhar sem fala, mas rico em todas as sentenças, sacramentado como a promessa de devoção ao deleite compartilhado, todos os átomos que compõem o corpo de uma mulher se abrem.

Sob ordem da luxúria, ela se oferta à posse que polariza entre rijeza e suavidade. Esta que lhe rastreia segredos, irrigado em provocações majestosas como a sugestão dos céus aos dotados de asas.

Sua silhueta agora é pulsão em feitio, delineada e moldada por ele, enquanto renasce de sua própria entrega. A entrega a este, que ela quer consumir a cada gota de suor, lhe confiando toda exclamação em vibrato, lhe revelando cobiça em melodia ao pé do ouvido, entre volições da fricção contra a pele tenra, da aspereza da barba não feita contra a delicadeza da face.

E ele a contempla, em toda singeleza, em cada detalhe, por anseio violento em querer vir. Assim, ele a toma. A partir de então o corpo dele é sua nova casa, a alma dele seu novo endereço, polarizado enquanto ela se perde na própria moradia. Até que em ápice, na ebulição dos sentidos e sentimentos, ela vê brotar na flor da própria pele a explosão do fastígio, lhe vestindo o nu de prazer e pétalas, a todo e cada canto de espírito.
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Não desceu. Está aqui, até agora entalado. Só pode ser porque é verdade. Mania mais intolerável essa minha de ter nove motivos para sorrir, e me atrelar ao décimo, o da lágrima. O que me faz lembrar que os momentos em que sou feliz são os que, por algum motivo mais forte, eu esqueço que sou triste.

Obrigada por ter ruído meu dia. E obrigada por ter me feito sentir, mais uma vez. Bastou aquilo, para que eu desmanchasse meu sorriso e virasse mortal de novo, a ponto de achar alívio nessa condição. Teu par de olhos verde-cinza desesperançados pela janela só puxaram a tampa do meu ralo. E veio o esgoto.

Só um vidro dividia teus olhos dos meus. Um vidro fino, que dividia universos. E ares. O meu, condicionado, o teu denso, bem mais pesado do que você. Não, não tenho trocado. Mas tu tinhas, e trocastes comigo apenas pelo olhar. E nem mesmo tesouros escondidos por mares jamais navegados pagariam o preço. Mas como não sabes ler, seguirás tendo a minha falta de trocado como mais um olhar indiferente, mais um carro que se vai, mais um pouco do mundo que te rouba. Te rouba de decência, te rouba o que tu não tens, nem nunca teve, e me mata também um pouco imaginar que talvez nunca terás.

Se eu falasse o que quer que seja, eu bem sei que só se ouve a parte do “não” quando se tem fome. Só se guarda a cena do carro indo embora quando a solidão coloca a existência no lugar do crime. Que só se consegue enxergar aquele vidro quando se pensa em sonhar. Temos isso em comum. Com a diferença de que eu sinto o peso do real podendo comparar com a ausência dele, e você não. Tão triste, que chega a ser mais triste do que eu. Então calei. E chorei, minha criança.

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And the Oscar goes to...




Só porque teu alto nível de convencimento te induz à deduções distorcidamente conclusivas, isto não significa que elas estejam de acordo com a verdade. Aliás, se existisse uma escala valorativa em grau de “se-achismo”, tua pontuação estaria elevada a ponto de te garantir uma estatueta na cerimônia de pessoa mais convencida do ano.

Resolvi que vou desfazer essa tua conclusão errônea de que estou apaixonada por ti. E decidi escrever antes que tu me exijas argumentos de corpo presente. Isso porque se eu te falar pessoalmente, no mínimo de tempo que o Sistema Nervoso Central do meu encéfalo leva para fazer com que meus lábios, pulmões e cordas vocais trabalhem conjuntamente, traduzindo meu pensamento pela emissão de sons em forma de linguagem, tu dirás que eu demorei na resposta. E caso eu não ache de imediato uma ou outra palavra, tu dirás que eu gaguejei, o que (para ti) confirmará esta tua afirmação infundada!

Pois bem. Não é porque de uma hora para outra eu descobri que existem mais de 63 tonalidades diferentes de cores no trajeto São Leopoldo/Novo Hamburgo, e tenha me surpreendido comigo mesma contando cores de caminhos que, em geral, eu nunca tinha prestado atenção, que eu esteja apaixonada por ti. Isso pode ser apenas tédio, sabia?

Não é porque toda santa letra de canção, me faz lembrar de alguma parte de ti em sua estrofe, pausa, vírgula, verso ou rima. Nem porque toda vez que eu tenha cantado, pensado em escrever ou gravar alguma canção nos últimos tempos, onde teu nome insista em aparecer sugestivamente como título que eu esteja apaixonada por ti. Eu posso apenas ter apreço por música brega. Escutou?

Se eu fico te perguntando o que tu tem a cada silêncio ou tentando interpretar qual será a decodificação de um suposto sentido oculto nas palavras “alô”, “olá”, “oi” ou “sou eu”, que tu insistes em emitir de forma variada cada vez ao telefone (porque raios tu não opta por uma só maneira de cumprimento de uma vez por todas?), que eu esteja apaixonada por ti. Eu posso apenas ter TOC ou ser paranóide! Capiche?

Muito menos é porque o teu toque, a sensação da tua pele de encontro com a minha, ou teu cheiro, ou teu sorriso, ou teu abraço, ou teu beijo, ou qualquer coisa que tu faças que me passem pelos sentidos, seja me entorpecendo ou me aguçando os mesmos, me fazendo entender finalmente o porque toda alma precisa ter um corpo, que eu esteja apaixonada por ti, eu posso apenas ser uma pessoa fixada na busca pelo conhecimento e centrada demais na questão filosófica clássica mente-corpo. Pegou?

Também não é porque tu virou uma espécie de parâmetro masculino, que dividiu o universo do outro gênero entre os menos que tu, os perto de ti, e os lamentavelmente abaixo de ti. Isso definitivamente, não tem nada a ver com estar apaixonada. E nem é porque tu estas acima do bem e do mal, isso nem é grande mérito, se tu parar pra pensar no tanto que tem de babaca no mundo.

E indo além, também não é porque tua ausência me faz sentir um vazio físico, como se fosse fome, só que mais pra cima e mais pra esquerda, nem porque tua presença me faz esquecer que existe fome no planeta, ou qualquer outra coisa que não sejam teus olhos, tua boca, tua respiração. Muito menos é pela forma como tu me desfaz, me abre, me arranca desse inferno gelado que eu me enfio as vezes com tanta intensidade que me derrete, que eu esteja apaixonada por ti! Ta me ouvindo?

Eu poderia seguir uma lista argumentativa sem fim aqui, mas acho que já te apresentei afirmações perfeitamente ponderáveis para te provar que nada disso significa paixão. Eu não estou apaixonada por ti! Ficou claro? Hein?

E agora passa esse Oscar pra cá!

Adulterados




Não posso nem descrever o quanto essa guria me irrita. Mas que criaturinha mais metida! Esconde-se atrás de tanta vaidade toda sua insegurança. Além de ser arrogante, presunçosa e mais nariz empinado do que.... Do que... Do que.... (pera que vou procurar no google um bom complemento de expressão popular pra isso. Xiii, não tem...) ahm... er... tá bem, do que eu!

Já pararam pra pensar que na imensa maioria dos casos em que implicamos com alguém sem um motivo aparente, estamos apenas projetando nossas próprias desaprovações? O outro-espelho, o outro depositário daquilo que sou e não queria ser, o outro meu alvo de apoio e desvio. Quem nunca foi com a cara de alguém (o que é não ir com a “cara” de alguém afinal?) e se surpreendeu depois, que atire a primeira pedra.

Todos fazemos. É valido, a nível de crescimento pessoal, sempre se estar atento as críticas que depositamos nos outros, visto que aqui não se trata de estudar a mente humana e traçar um diagnóstico com propriedade. Se somos capazes de identificar no outro via senso comum, a palavra resume o processo. Identificar deriva  de identidade. E identidade provém de idêntico. É a partir da realidade externa que as pessoas constituem este noção subjetiva de um “eu” separado dos demais. Ao longo da infância, da educação, das vivências singulares, de como foram significadas as experiências reais ou imaginárias de cada um, que vamos construindo esta idéia (própria) de identidade.

Não é difícil perceber, visto que não nascemos dotados de visão raio X, que o dedo em riste que voltamos ao outro está apontado a nossa própria testa. Já que ninguém esta lendo nossos pensamentos, confessemos na cumplicidade do anonimato (de vocês, eu estou confessando abertamente), quantas vezes não julgamos alguém sem conhecer? Quantas vezes escutamos um lado de uma história, sendo que toda história tem no mínimo três lados, e mesmo assim caímos na ignorância de tomarmos partido-cego? Quantas vezes não caímos na armadilha reducionista de limitar o universo inteiro que é cada ser humano, na definição de um adjetivo?

Duas coisas incomodam. O idêntico e o oposto. O idêntico, por ser aquilo que sou. E o oposto por ser aquilo que gostaria de ser. O que não tem nada a ver com a gente, não incomoda. Mas incômodo é sempre bem vindo. A areia que entra na ostra é um baita incômodo, mas se assim não fosse, não existiram pérolas.

Concordo que as vezes cansamos de nadar em oceanos de ostras vazias. Às vezes somos grãos de areia, dentro destas ostras, e elas não sabem o que fazer com a gente. E uma boa existência sempre vai incomodar. O colega de trabalho que quer te passar a perna, a menina que te inveja, o amigo da onça que quer te ferrar, aquela pessoa que nem te conhece e te crucifica sem o mínimo de propriocepção para discernir o quanto fala dela mesma.

Assim caminha a humanidade, hora sendo ostra, hora areia, pérola ou oceano. Com alguma coisa em comum. O traço humano que nos financia como fragmentos da mesma espécie. Tenho mania de imaginar todas as pessoas quando crianças. É um exercício que aconselho, pois fica mais fácil entender sobre a primitividade humana, além de ser divertido.

Aos poucos, vamos percebendo quem é aquela criança que precisa de atenção porque não teve, qual é a insegura, zombada e excluída na escola, a emburrada num canto, a que não teve o carinho que deveria ter, aquela que não foi respeitada em sua condição de infante e cobrada a ter recursos que ainda não possuía, a que fica procurando um rosto conhecido na apresentação de final de ano e não encontra, a que morde o coleguinha, a que tem medo do escuro, a que só precisa de um colo, uma historinha pra dormir e um beijo de boa noite.

Às vezes penso que o fascínio que temos com crianças, é porque elas nos lembram do tanto que o mundo tratou de nos corromper e o do quanto deixamos que ele o faça. Trocamos sonhos por descrença, pureza por desconfiança, entusiasmo por conformismo, peito aberto por auto-preservação furada, espontaneidade pela norma, fantasia pelas máscaras identitárias.

Abdicamos das nossas perguntas, dos nossos porquês, de ver o mundo como um espaço potencialmente novo a ser descoberto e criamos a falsa idéia de que crescer seria constatar que mundo é essa porcaria aí mesmo. Mas mesmo corrompidas, quebradas ou cheias de cicatrizes, somos todos ainda crianças. Crianças que trocaram sua capacidade de imaginação, suas bailarinas ou super-heróis, por essa fantasia chatinha, sem cor e sem graça de adultos.

Feliz dia das crianças procês!

Cheios. De falta.




“É que ele não me completa”.


A frase saiu de uma amiga portadora de vários atributos. Bonita, inteligente, sensível, romântica, são alguns deles. Após eu ter questionado o porquê do termino de sua mais recente relação – a quarta esse ano, e estamos em outubro – ela me responde com essa afirmação, com uma certeza tão inquestionável que só me restou dizer: “então tá.”


Guardem a frase. Agora levantem a blusa, e olhem para própria barriga (se estiverem num local público, podem apenas imaginar a própria barriga). O que vocês vêem? Salvo se forem o caso daquela moça que fez tantas plásticas que perdeu o seu, todos poderão constatar que ali reside um umbigo. Quem tem cicatriz de piercing infeccionado, pode ter dois “bigos” também. Mas um dia foi um.


Como nós, ligados um no outro, via cordão umbilical, um dia nos fomos complementados por um outro alguém. Então, se você tem umbigo no meio do tronco, já carrega a marca da falta. Lembre disso, cada vez que olhar novamente para o seu. Inerente à condição humana de existência no mundo, é a falta que nos faz permanecer em busca, que por sua vez, nos garante a condição de movimento.


Como nós vamos lidar com isso, com o quê vamos tentar preenchê-la, e qual caminho vamos perseguir, vão  dos valores pessoais de cada pessoa. Uns querem uma bolsa Luis Vuitton, outros uma Ferrari, alguns um marido de extensa conta bancária, um emprego de altíssima remuneração, um corpo perfeito, uma viagem longa pela Europa, o conhecimento, a cura do câncer, o amor, o cargo de presidente da república, cada um no seu redondo. Quem estiver plenamente satisfeito com o que tem, pode fazer a última busca. Escolher o seu caixão, e escrever a próprio punho em sua futura lápide a sentença de morte: “sou pleno”. Basta deitar e esperar, visto que não há mais motivos para viver.


Afinal, é a busca que dá sentido à vida. É o combustível que nos coloca em movimento. E viver é estar em movimento. Agora, esperar que alguém dê conta de preencher essa falta, já é sacanagem. Justificada, porque a gente se atrapalha ali na paixão. Paixão é uma fase em que a percepção da realidade encontra-se tão alterada, que podemos (quase) acreditar que estamos plenos. Que a dada pessoa é o bombril mil e uma identidades que faltava a essa nossa louça suja, que agora sim, finalmente, encontramos o remendo perfeito para esse inexistente cordão umbilical que o vazio na barriga insiste em lembrar que falta.


Se existir de fato um sentimento real (posto que paixão é fase), inevitavelmente, vai chegar o momento de restar o amor. E a falta. O casal pode achar estratégias, decidindo ter filhos, vai saber, dizem que é isso que completa né? Acontece que se ocupam tanto na função de pais que a falta perde parte do peso, não se tem muito tempo para as próprias questões existenciais, e assim vai se burlando esse vazio. Até que os filhos crescem, ou não crescem nunca, desimporta, uma hora a falta volta.


Iniciar uma relação esperando se sentir plenamente completo é mais furada que meia de mendigo. Pra quem estiver apaixonado, isso pode soar absurdo, então aconselho que volte a ler depois que a paixão passar. Já posso ouvir: “E daí, tu sugeres o quê? Se nunca vai acabar também devo ir comprar meu caixão?”. Calminha. A falta é ótima. Não é agradável de ter, mas sem ela, você nem estaria me lendo aqui agora. Inclusive não leria nada, visto que nem teria aprendido a ler. Pra que aprender (o que quer que seja) se não te falta nada?


O ponto deste texto não está em sugerir a alguém cortar os pulsos, mas em ressaltar a importância de se ter metas, tendo consciência que o caminho tem um valor fundamentalmente mais importante do que a chegada. Se quisermos sair de um lugar ao outro, podemos agilizar o pouso entrando num trem-bala. Mas estaremos renunciando à universos inteiros que vivenciaríamos caso viajássemos prestando atenção em cada passo.


Mais uma vez, entramos na dilatação do tempo, sábio Einstein. Perseguir, sim. Olhar para o horizonte, sempre. Mas jamais desmerecer a importância do tempo presente. A falta veio e vai conosco, seja onde estivermos. É importante aprender como usá-la ao próprio favor, e não contra si. E isso inclui assumi-la como condição, sem colocar como dever do outro resolve-la, correndo o risco de dar um tiro no próprio pé. Quando estivermos andando na mesma estrada, ao lado de outros umbigos, será incomparavelmente mais enriquecedor não centralizar o olhar só no próprio.



Segue a confissão do tempo  
Na imensidão desta noite cerrada
Fala pelas vozes do Vento
Nos calvários por onde ele curva
Uiva as  palavras que engulo em seco
Abre caminho em meio ao escuro
Circula teus temores e prantos
Retornando a mim, de onde ele vem

Pequenas fagulhas de eternidade
Preenchem a tua ausência
E as árvores secas
Ensinam-me sobre estrelas e fados
Na esperança distante da cidade que congela

Hoje escrevi nas paredes palavras não ditas
O que outrora ardia, congela
Na espera de habitar por esses mundos
Em que o luar dos dias aventurados
Consentem ao sol rasgar a aurora da noite

Abro esta janela a fitar o horizonte
Enquanto o vento me lambe o rosto
E a noite me beija os lábios
Meu olhos trafegam para longe do peito
Lá por onde transitam as novas eras
Que me trazem novos ventos

Abelhas...




“Era uma vez uma raposa e uma cegonha, que pareciam estabelecer uma relação de amizade. Um dia a raposa convidou a cegonha para jantar. Querendo pregar uma peça na outra, serviu sopa num prato raso. Claro que a raposa tomou toda a sua sopa sem o menor problema, mas a cegonha com seu bico comprido não pode tomar nada, e voltou para casa morta de fome. A raposa fingiu que estava preocupada, perguntou se a sopa não agradou a cegonha, mas a cegonha não disse nada. A cegonha agradeceu muito a gentileza da raposa e disse que fazia questão de retribuir o jantar no dia seguinte. Assim que chegou, a raposa se sentou morrendo de fome, curiosa para ver as delícias que a outra ia servir. O jantar veio para a mesa numa jarra alta, de gargalo estreito, onde a cegonha podia beber sem o menor problema. A raposa, só teve uma saída: lamber as gotinhas de sopa que escorriam pelo lado de fora da jarra, e voltou para casa faminta”.



Quando algo perturbador acontece, gerando sofrimento ao indivíduo, a sua imaturidade psicológica se sente ameaçada. Vem então à tona, oriundo de registros desconhecidos armazenados em seu inconsciente, sob a ordem do desejo, aquela voz que lhe exige a reparação, traduzindo-se (mal e parcamente) na aniquilação do seu opositor.

Necessariamente neurótico, o indivíduo vingativo é um vitimado, e dominado pela própria sede de poder. Ora, se ambiciona, é porque lhe falta, e se a falta se volta ao outro, é porque inveja. Inveja todos aqueles que estiverem em melhores situações psicológicas que a dele. A perversão aqui se dá, quando fingem relações, tentando se aproximar, e manipular os alvos da própria inveja. Isto até que se ergam mostrando os caninos com os primitivos e escassos recursos da tirania e insensatez.

Então, meu caro enfermo de voz pseudo trovejante (sim, o texto tem destinatário), preste atenção. Se eu, que sou eu, me encontro necessariamente, tal como provam os fatos, em uma condição psicológica melhor que a tua, a ponto de provocar-lhe tamanha inquietação, fixação, tentativas frustradas de aniquilamento, e na falta de fios reais, apelar para acusações infundadas, num pobre anseio de me ferir, eu lamento muito te informar, mas tu deves estar bem ferrado.

Desculpe-me se te deixo dando soquinhos no ar, mas aí já entra a minha própria perversão, é divertido para mim vê-lo fazendo. Mas como perdão é virtude dos fortes, eu te perdôo, e resolvi te alertar aqui, sobre ti mesmo, vide o presente texto.

Vou esperar tu ires buscar um pires (talvez um balde) para pingar a babinha espumosa da tua raiva aí, vai lá... Respira... Tá melhor? Ok, segue o barco, eu sei que deve estar difícil, mas tente ler isto atentamente:
“Ao armar-se de calúnia e de outros mecanismos de perseguição, contra aquele a quem odeia, está realizando uma luta inconsciente contra si mesmo. (...)Além da inferioridade moral que tipifica o vingador, o seu primarismo emocional elabora razões ponderadas que são arquitetadas pala mente em desalinho, para justificar o prosseguimento da façanha.”

Então pensa comigo, e vê se te faz algum sentido. Eu imagino o quanto que a minha existência te seja ameaçadora e irritante. E sim, confesso que a minha pequenez faz com isso me envaideça. Eu, nessa minha busca incessante por amor incondicional desde que me cortaram o cordão umbilical e me individualizaram no mundo, sempre adorei as manifestações ambivalentes de amor e o ódio, é a indiferença que me maltrata. Mas se neste caso, nem isso iria me ferir, é porque não tem mais jeito de tu entrares, não adianta ficar querendo fazer estrondo na porta. Estes aliás, me incomodam assim como aqueles insetinhos de banana. Da uma balançadinha do ar, e pronto, nem mover-se para matar tu te moves porque não vale a pena. Então, qual é a lógica? Exato, muito bom, nenhuma.

Tem pessoas que nasceram para liberdade e outras para escravidão. Mas lembra-te, que nenhuma grade, amarra, ou espora pode tirar a liberdade de um homem. Tu podes ser livre, mesmo sendo pegasus atado ao celeiro, como Freud dizia se sentir. Posto isso, eu então te lanço a seguinte pergunta: porque será que a abelha perde a vida? Insetos... Ah, pobres insetos. Leões e abelhas. Então, novamente, pensa comigo. Que tal ir amar alguém (não eu)? Que tal ir passear ao por do sol, ler um livro, balançar na rede, brincar com um cãozinho, buscar a poesia das auras, admirar as formas puras, tomar chuva, olhar as estrelas, apaixonar-se? Que tal existir? Sério, tem coisas bem mais legais do que eu, e do que teu mundinho, no mundo lá fora.

Mas eu bem sei, que nada adiantam estas palavras para um homem encarcerado em si mesmo. Ele já é escravo. Mas se perdão é devolver ao outro o que é dele, não tenho outra escolha senão te devolver à própria senzala. Torço por ti. Um abraço, assinado, pela frente, e de peito aberto, como se faz por aqui, no povo do qual eu venho.

Anjos Cadentes







Já te deleitastes com o sabor do medo?
Se sim, que gosto ele tem?
Já ofegastes com as laminas lhe correndo nas veias?


Quem prometeu, afinal não tem culpa
Nem quem ainda crê
E ambos sentenciam-se a Renúncia.


Tal como o anjo que amputa as próprias asas
Seja por vontade, indução ou covardia
Desmembrado do paraíso, se torna


Nem maçã, nem serpente
Mas a desesperança da Gula
Somente por esta mordida
Somente pela saliva que escorre
Apenas por esta noite


Se não cruzei a linha da luz
Se não demorei-me na sombra
Fui salva.
Mas engana-te
Foram outras mãos


Se o horror fraudar-me a fala
Ou a fraqueza entorpecer-me o movimento
Por favor, não insista. Nem me salve.
Entre ser salvo no cárcere da dívida
Escolho a liberdade do abismo


Apenas voe.


...

....

.......

Eu e elas....todas de mim!





“Quem me vê assim cantando
Não sabe nada de mim
Dentro de mim mora um anjo
Que tem a boca pintada
Que tem as unhas pintadas
Que tem as asas pintadas
Que passa horas à fio
No espelho do toucador
Dentro de mim mora um anjo
Que me sufoca de amor
Dentro de mim mora um anjo
Montado sobre um cavalo
Que ele sangra de espora
Ele é meu lado de dentro
Eu sou seu lado de fora
Quem me vê assim cantando
Não sabe nada de mim
Dentro de mim mora um anjo
Que arrasta suas medalhas
E que batuca pandeiro
Que me prendeu em seus laços
Mas que é meu prisioneiro”

Composição: Sueli Costa/Cacaso


Quem sou eu?


Sim, estou perguntando. Te arrisca? Até onde eu posso pensar, “eu” é o que não é “tu”, mas para vós eu já serei "tu". E "eu", nem o “eles”, nem o “nós” jamais serão . Nós (primeira pessoa do plural), e nós (emaranhado), tanto faz, quase a mesma coisa, mas ainda assim, não “eu”. Confuso? Pra mim sim. 

Perguntei para várias pessoas. Perguntei para amigos que em quem confio. Perguntei a familiares. Para alguns leitores que eu nunca vi pessoalmente, mas que comigo trocam. Perguntei ainda a pessoas que eu sei que não vão com a minha cara, e outra com quem eu nada tenho em comum. Ou tenho, quem sabe? De qualquer forma, sempre é bom ouvir no mínimo três lados. Vale pra tudo.

Alguns responderam falando de si.“Gosto de ti porque tu....” Gostar ou não de mim era irrelevante, queria saber quem sou, não o que esse quem evoca ou repele. Outros me teceram elogios, e um teve mais coragem para me dizer que me acha muito pretensiosa e parcial. Mesmo assim, referia-se a minha escrita. Não recebi nenhuma ofensa no face to face, uma lástima. Dizer que eu era brilhante ou genial, seria recebido com o mesmo impacto do que nomear-me como dentro (ou abaixo) da média.

Tudo isso ainda estaria na minha relação com o mundo, e não em quem eu sou. Mas nenhuma resposta foi igual. E esta foi a melhor informação que retirei do breve questionamento. Se nenhuma resposta foi igual, e se é impossível se distanciar da questão ao ponto de não falar minimamente de si mesmo (afinal de contas,  “tu – para mim – és...) e se nenhuma resposta encontrou correspondência comum, a única conclusão que me resta é que eu sou uma para cada pessoa. Portanto, tudo que sou para alguém, sou para alguém. Não é quem sou eu.

Alguns sabiamente anteveram, respondendo que era impossível responder. Uma resposta crua, sem aprofundamento, talvez tenha sido o mais perto que um outro tenha chego de um eu – o meu, no caso. Inconstante e em busca”. Foi do Marcello. Ele não  disse artista, atleta, pirada, romântica, disléxica, paranoide, cantora, narcísica, o que consta na tua certidão de nascimento, ou o que dirá o teu diploma.  Nenhuma definição. Ele foi o mais longe de si mesmo para responder, afinal tentou voltar-se a pergunta e abriu.




(…)


-         O que você ama nos outros? Me pergunta meu amigo “Verme”, em relação ao meus outros.
-         Eu amo a possibilidade. Do ser e desfazer-se, do não ser e recriar-se.
-         O brincar com os papéis?
-         O que seria viver no mundo senão brincar com papéis?
-         Nada além do viver no mundo. Quem precisa de face?

(…)



Tudo o que sou, é o que acredito que sou. Tudo que eu posso parecer, ou vir a ser, eu sou a partir do meu corpo, meu eu-pele, e de como ele interage no mundo. Ou ainda da minha consciência, do que ela pensa que estou fazendo, ou do que pensa meu eu.  Angustiante? Sim. Retire a identidade de um homem, e veja como ele se sai.

Quem sou eu?


Jamais poderei escrever. Posso escrever o que não sou. Não sou o que eu mostro ser, nem o que se vê. Não sou aquilo que eu posso pensar. E se não posso pensar, não posso traduzir. E se não posso traduzir, não posso escrever.



Eu sou... Eu-sinto... e eu moro no vento...
...
...
...

Ah! Eu sou Gaúcho!





         Os ventos possantes que sopram nas coxilhas distantes, nos pampas e até mesmo nos estádios de futebol mais importantes, Olímpico e Beira-Rio, onde as torcidas gremistas e coloradas fazem tremular as bandeiras verde, vermelha e amarela, exaltando num só coro o orgulho gaúcho, vêm com ainda mais entusiasmo em setembro. É neste mês que se comemora a Revolução Farroupilha, a revolta civil armada mais extensa em comarca nacional.


            Mas ao contrário do espírito brasileiro que se veste com as cores da pátria em copa de mundo, ou que vagamente recorda as origens comemorando carnaval em todo fevereiro, aqui nossa bandeira brande ao vento o ano inteiro. Eu já sei que vou arrumar encrenca com meus leitores fora de solo Rio Grandense, mas vejam bem, é fato que nosso orgulho tem vida dentro de cada coração gaúcho.


            Aqui, ao invés de cultuarmos traseiros em desfile de carnaval, maravilhamo-nos com os desfiles dos cavaleiros armados de bandeira e raça, em culto ao brasão de nossa “pátria”. Sim, vou radicalizar de vez agora, se é pra arranjar encrenca que não seja meia encrenca, que seja total. Isto porque o gaúcho é gaúcho antes de ser brasileiro. Nunca ouvi até hoje de um gaúcho que ele é brasileiro antes de ser gaúcho. Não quero desmerecer outras culturas, outros estados, isso seria estúpido da minha parte. Porém apenas os gaúchos entendem o significado deste orgulho.


            Nossa tradição vai ainda muito além do espaço geográfico e de indumentários, das tradicionais vestimentas, bombachas e vestidos de Prenda. Significa transmitir os valores que nossos antepassados nos legaram. Mas a transmissão de fatos culturais de um povo não consiste em qualquer forma de tradição? Sim. Mas cada grupo social tem sua própria escala de valores, o que diferencia os povos. Não estou aqui afirmando que temos mais ou menos valores que outros povos, mas existem peculiaridades que distinguem um povo do outro.


            E tradição gaúcha é o renascer de prestígios e glórias relacionadas a fatos épicos. É um culto à memória dos feitos de seu povo. Nasceu no campo, nos galpões e fez raiz em cada gene, sendo que trazemos no sangue e na alma, nos hábitos e em nossos valores a nossa honra. Fica minha singela homenagem à minha terra virtuosa, forte, aguerrida e brava. 




Agradecimento especial ao Rodrigo, autor dessa fotografia, e gaúcho. 
Isto resume. 

Casamento de opiniões. Ou divórcio de idéias.




(...)


-          Mas como assim tu nunca pensou em casar?

Me perguntou naquela histeria típica de mulher quando embesta. Mas com o detalhe de que eu era a mulher, e ele o homem.

- Assim, nunca.

- Mentira tua!

- Não é. Juro.

- Mas por que não?

- E porque sim?

- Ora, porque sim... Porque sim, ué. Para consolidar a tua relação. Para constituir uma família. Para compartilhar a vida com alguém, marido e mulher, esposo e esposa, estado civil.

- Não acho que compartilhar a vida com alguém significa ir gastar uma grana federal em uma simples festa, trocar alianças na frente de um padre e de um monte de gente e pronto, a mágica “do felizes para sempre” foi consolidada.

- Olha aqui. Primeiro. Se tu insistir em chamar novamente o dia do casamento de “uma simples festa”, não vai dar para a gente conversar. Segundo, não foi nada disso que eu disse, não é a cerimônia que vai fazer nada, a cerimônia é a simbologia disso tudo. E terceiro.... ah quer saber? Deixa pra lá.

- Começou, termina.

- Pra quê se tu vais negar?

- Agora fala.

- Bom, em terceiro eu acho que tu apenas afirmas isso porque é filha de pais separados, deve ter algum tipo de trauma de infância e criou a idéia de casamento não da certo.

- Meus pais se separaram quando eu tinha 13 anos, não é mais infância. Além do que, antes disso eu também nunca quis casar, nunca olhei para o futuro penando nisso.

- Mentira tua!

- Não é mentira. De pés juntos que não é.

- Tu nunca brincou de dia do casamento quando era pequena?

- Não.

- Nem em festa junina? Nunca quis ser a noiva?

- Se tinha pescaria, pra que eu iria querer ser a noiva? Aliás, por Deus que eu nunca entendi a graça daquilo.

- Por Deus digo eu! Tu já foi em algum casamento, certo?

- Claro que sim.

- E tu nunca chorou em um casamento?

- Já chorei sim.

- Há! Eu sabia!!!

- Mas não foi pelo casamento, foi por outro motivo. E ninguém viu.

- Mas que guriazinha. Bom, como tu nunca te casastes, e já foi em um casamento, o que tu fazes na hora em que a noiva vai jogar o buquê e ficam todas as gurias que ainda não se casaram atrás?

- Eu fico assistindo, adoro essa parte. Eu dou muita risada.

- Ta bom, eu tenho que concordar que é engraçado mesmo.

- É muito tri, é melhor do que luta livre.

- Ai,ai. Escuta aqui. Toda a mulher, toda a mulher, pensa ou já pensou em se casar.

- Pois então eu sou um homem que nasceu no corpo errado.

- É nada, tu é mulher. É inteira mulher, em cada detalhe!

- Então talvez as outras mulheres que sejam parte homens, visto que tu és e defende tanto o matrimônio. Aliás, veja a etimologia da palavra: matri mônio, domínio materno. Qualquer proximidade com a palavra demônio é mera coincidência.

- Não distorce a situação. Não inventa teorias absurdas para justificar a mentira que tu estas tentando me vender. Tu quer se casar, sim!

- Quero?

- Não quer?

- Não!

- Não acredito.

-Então tá bem.

- Como assim tá bem?

- Então não acredite, ué. Tua descrença não vai mudar minha opinião.

- Ok. Então me explica. Por quê. Porque tu não pensas em casar?

- Porque o casamento destrói uma relação. E não, não é trauma parental, não é medo de compromisso, não é desilusão amorosa. Eu acho que o casamento institui uma idéia de laço entre duas pessoas, como se as alianças nos seus dedos trabalhassem por si só. Uma idéia falsa de segurança e de permanência. Uma espécie inexistente de garantia. O casal deve conquistar-se mutuamente, dia após dia.

- Concordo. Mas os dois podem fazer isso estando casados.

- É bonito na imaginação, mas um tanto quanto utópico. O dia a dia vai consumindo algumas coisas. Pequenas manias, que eram tidas como engraçadinhas nos tempos de namoro podem se tornar insuportáveis. Trabalho, stress, contas para pagar, insatisfações pessoais, vazios existências, tudo isso acaba sendo compartilhado também, ou tu achas que só se partilha companheirismo, prazer e sorrisos?
Sem falar em sexo, não tem como a rotina não esfriar isso uma hora.

- Criatividade, minha cara. Inovação. Se é o lema central para os negócios, porque não levar para o casamento também, que não deixa de ser um? Afinal tem que se investir, trabalhar em equipe, dividir tarefas, aprender a ouvir, querer crescer junto, saber ceder, lidar com diferenças, saber gerenciar.

- Ah sim. Então nascem os filhos. Gerencie isso então, e um casamento ao mesmo tempo. Como se já não beirasse o abismo do desumano administrar um casamento, tem que gerenciar outras vidas por tempo indeterminado, sem direito a férias, demissão, devolução ou indenização. A não ser na separação, aí sim, entram direitos legais. A pensão alimentícia, a  divisão de bens e de cacos de coração restantes, um fica com a frustração e o outro fica com a sensação de fracasso. Até testemunha tem, que nem condenação: “Eu vos condeno, marido e mulher”. Não, muito obrigada, eu passo.

- Medrosa!

- Como assim?

- M-E-D-R-O-S-A!!!

- Por quê?

- Por que tu estás pensando no que de pior pode acontecer, para eliminar a chance de nascer em ti um desejo de tentar. Porque tu queres um amor para vida toda, e preferiu te convencer que isso não existe na vida real, só em Hollywood. Mas eu vou te dizer uma coisa. Felizes para sempre, realmente pode não existir. Agora duas pessoas, que se amam, resolvem ser fiéis uma à outra e construir a vida delas juntas, com altos e baixos, com risos e lágrimas, com noites e dias, invernos e verões, isso minha cara, isso existe sim.

- E porque isso tem que passar pelo casamento? Ou existe alguma lei que me proíba de ser fiel a uma pessoa, construir minha vida com ela, compartilhar a minha existência, e estar ali seja em tempestades ou calmarias?

- Hum!

-Hum!!

(depois de alguns momentos reflexivos de silêncio).

- Olha... Talvez tu tenhas razão. Talvez o casamento não seja esse bicho de sete cabeças que eu acho que é. Talvez possa dar certo.

- Tá maluca? Casar é firmar condenação à pena de morte de uma relação. E em comum acordo. Me convenceu!

Jogo de Xadrez





Sabe aquele tipo de criança que ao ser condenada por ter feito o que não devia fazia cara de inocente? Assim. O corretivo na verdade apenas servia de lição nível jardim-de-infância em como melhorar sua própria dissimulação. Da próxima vez estaria mais atenta à como fazer o que não se deve sem ser descoberta, ou caso fosse, a acobertar de maneira mais convincente e/ou menos danosa.


Eu não, eu era uma mula. Eu ia chorando (e alto) para o castigo. Ficar fechada no meu quarto sob ordens superiores de “pensar no que eu havia feito”, realmente me faziam pensar no que fizera e sentir culpa, crendo ser a mais desumana das criaturas da face terrestre. Quando era merecido, ressalvo. Quando não era, minha face em nada se aproximava da inocência, mas da raiva. E eu argumentava, amaldiçoava, eu dizia “eu te odeio” com todo calor da minha fúria. E acabava por levar castigo em dupla jornada.

Já no colégio, nas primeiras experiências de amizade, a fofoca rolava solta entre as amiguinhas. “Viu o cabelo da ciclana que coisa horrorosa?”, ela perguntava. “Parece que a mãe dela mandou podar a cabeça da guria como arbusto por jardineiro com mal de Parkinson”, ela apontava, arrancando gargalhadas maldosas das demais. Mas era a ciclana chegar perto para o discurso mudar. Para a ciclana não, para a ciclana ela dizia que tinha ficado muito moderno e combinado com o formato do rosto dela.

Eu era uma imbecil. A ciclana me perguntava: “o que achou do meu cabelo novo?” , e eu já suava frio. Era mais forte do que eu. Não conseguia não dizer que estava horrorosa e que não sabia o que ela estava pensando quando fez aquilo com ela mesma, o máximo que conseguia para abrandar era dizer que não tinha gostado e que não a valorizava, mas mesmo assim acabava a ciclana me odiando, e ficando amiga de gurias como ela, que não lhe atentavam a auto-estima.

Com os professores, a coisa funcionava em base de babação-de-ovo. A aluna mais aplicada, mais 
solícita . Por mais chacoalhadas ou injúrias que recebesse, ela jamais alterava o tom de voz, jamais exteriorizava qualquer reação de contrariedade, somente se calava em num ato de reverência à autoridade. Na análise conceitual do seu boletim, ela recebia MB (muito bom), excelente comportamento e postura. Pelo menos no que os olhos docentes alcançavam. Todos os apelidos maldosos de seus professores eram criação dela, além de desfilar o reino animal em sussurro a cada virada de costas. “Vaca”, “cadela” e afins.

Em termos de reino animal, eu era uma anta. Eu revidava, eu me posicionava contra a autoridade máxima, e cada injustiça por mim presenciada era fervorosamente contrariada e defendida. Quando eu era culpada, eu respeitava, calava e aceitava minha punição. Certa vez me acusei sozinha porque a turma iria ficar sem recreio se o culpado pelo sumiço do apagador não fosse identificado, e lá fui eu também sozinha até a sala da diretora pensando que ela podia me torturar que não entregaria os amigos envolvidos no delito.  Meu boletim geralmente vinha com um grande I (de insuficiente), no que diz respeito à postura e comportamento. Eu era um organismo vivo em sala de aula, e colégios não são feitos para pessoas, mas para objetos esponjosos cuja única função é a absorção e inanimação. I de incômodo.

Nós duas crescemos. Ambas pertencemos à mesma geração. Temos mais coisas em comum do que eu gostaria que tivéssemos. Nós duas gostamos de filmes, livros, viagens, frescuras de meninas, bebês e animaizinhos. No que afinal você é tão diferente de mim, além de ser arrogante, metida e destrambelhada, ela se pergunta. Não pergunta para mim, porque pessoas como ela não o fazem dessa forma, perguntam-se em silêncio.  

Nossa diferença querida, é que enquanto tu traias o teu primeiro namoradinho e aos olhos dele era a garota perfeita, eu fui lá para o meu e disse que gostava de outro garoto e virei o demônio. Nossa diferença é que no trabalho, enquanto você engolia um sapo atrás do outro, queria usar a cabeça dos seus colegas como degraus de escala e resolveu seduzir o seu chefe para tirar algum proveito monetário, eu mandei o chefe que me assediava para a puta-que-lhe-pariu e pedi demissão em alto e bom som.

Nossa diferença é que enquanto você é amável e solícita com todos, eu sou apenas com quem me vale a pena sê-lo, e como a maioria não me vale a pena, eu passo por antipática. Nossa diferença é que você nunca sentiu o peso do que é real, com o que ele tem de bom e de esmagador, nunca chorou em praça pública, nem amou sem interesse. Você jamais rasgou o script da peça e apelou para improvisação, nem nunca deixou que te fotografassem nos bastidores sem maquiagem.

Nossa diferença é estrutural meu bem. Além de você ser mais esperta e se dar bem melhor do que eu. Vive como quem joga friamente um jogo de xadrez. Nada em você grita, sai para fora e se mostra, como para mim. Nada fica visível a olho nu, nada sai na chuva e volta encharcada, nada despenteia, perde a pose. Nada te meleca o peito e te sua pelos poros, nada te estala como mão espalhada na face. Burra sou eu, não você. Mas eu não corrôo minhas próprias veias, não apunhalo as costas alheias, e não vou ter câncer precoce

Síndrome de Diagnóstico



As patologias nunca estiveram tão banalizadas. O mal-estar se transformou em um tabu onde lágrimas são mais interditadas do que carne contaminada em açougue de esquina. Ninguém mais fica triste, fica deprimido. Crianças perderam a inquietação característica da infância, em troca de hiperatividade. O desinteresse em sala de aula – na estrutura fracassada de ensino vigente – é delimitado em boca cheia pelos docentes como síndrome de déficit de atenção. Me pergunto de quem.

Parece ter sido dada a largada à busca colossal por um enquadramento demarcativo, algo que conste nos registros. A aldeia psi tem sua parcela de culpa no momento em que enaltece os diagnósticos, herança de um dos pais da psicologia, a ciência médica. Diagnóstico, tratamento, prognóstico e resultado, necessariamente nesta ordem. Tudo muito prático, objetivo, linear. E antagônico à psique humana.

Alunos de psicologia geralmente passam os dois primeiros anos da faculdade seguros de que possivelmente são o único caso (desconhecido por Freud) que comporta todas as estruturas de personalidade. Eu inclusa. Sem falar que certamente também tinha TOC, Transtorno Afetivo Bipolar ou bordeline. Mas poderia ser maníaca e ter neurose obsessiva, distúrbios compulsivos e/ou personalidade adicta, depressão, melancolia, hiperatividade, fortes inclinações esquizofrênicas, alguns momentos de pânico e outros em episódios autistas ou anti-sociais. Isto sem contar uma plausível Síndrome de Esquiva, um possível Transtorno de Personalidade, além de convenientes momentos de Agorafobia.

Rodamos o CID e o DSM até nos darmos conta de que – em campo de perturbações mentais - quem tem tudo não tem nada. Alívio? Que nada. Aliviados estaríamos se pudéssemos nomear o que afinal se passa conosco. Ora, se existe um nome para isso, não estamos sozinhos, deve existir alguma saída, se existe diagnóstico deve existir terapia breve, medicação, internação, ou grupo de apoio. A mim apenas cabe parar aqui de braços cruzados, no conforto dessa sala decorada em art noveau, batendo o pezinho, esperando meu Prozac e pagando minha conta todo mês. Más noticias, não funciona assim.

Vemos pessoas institucionalizadas apresentarem-se com o nome de suas patologias, “muito prazer, meu nome é Carlos e sou esquizofrênico”. Com o mundo parecendo cada vez mais um manicômio em forma de globo pintado de azul, passamos todos a fazê-lo. Buscamos equilíbrio, vide as salas lotadas de yoga, verso as casas decoradas em feng shui. Buscamos felicidade, a promessa contemporânea, ou você acha que a mídia funciona em cima do que? É evidente que o carro x, o fast food y, a pasta de dentes z, foram feitos única e exclusivamente para te deixarem feliz.

E buscamos o paradoxo de não ser mais um na multidão, ao mesmo tempo que queremos delimitação generalizada. Ter nome para a própria angústia, solidão, desamparo e dor funciona como âncora, tanto para se agarrar em esperança de cura (inexistentes devo colocar, visto que estes são intrínsecos à condição humana de existência) quanto para justificar-se a si ou ao resto das pessoas. Afinal que culpa você tem de ter depressão?

Chegamos no tendão de Aquiles. A culpa. Talvez a maior fonte de sofrimento da raça humana. Bom que a temos, assim não saímos matando uns aos outros. Mas nos sentimos culpados pela própria dor. Nos sentimos culpados se não conseguimos cumprir a promessa contemporânea ao concretizar a felicidade. E também nos sentimos culpados quando conseguimos.

...

Corra tola, corra!




Ela era tão esperta, ela tinha tudo planejado. Ela sabia mais do que você, ou eu, com certeza mais do que nós, vós, ou eles. Confiante, ela seguia com o nariz apontado ao céu, mas com olhos voltados para frente, quem sabe aonde vai não se entretém olhando para outra direção que não para esta.

Ela percorre atalhos conhecidos. Faz os cortes necessários. Ela paga caro e lhe diz com audácia que tem gasolina pra queimar, mas ela queima quilômetros. Ela segue hora apagando incêndios, hora gastando combustível, mas não pede ajuda. O que afinal vai mudar depois que ela se for? O sol vai continuar nascendo e se pondo, a vida continuará. Com ou sem ela. O que sempre estará ali será a estrada. Avante.

Ela engole o suspiro, mas não perde a pose, ela finge que não engasga. Mesmo que sempre carregue, não importa onde vá, ela carrega. Não tem mais como tentar lembrar do que ela esqueceu de esquecer. Ela salta em queda livre, ela queria criar asas antes de tocar o chão. Ela sabe que logo vai acabar, logo tudo isso vai passar, melhor pensar, melhor nem pensar.

Mas ela prefere atropelar a pausa, afinal de contas ela sabe o que quer, não tem tempo para isso. Está atrasada para chegar onde não precisa estar. Dirigindo na velocidade da luz, ela escuta o grito do som, ecoado na mesma voz que ela insiste em não ouvir, só porque sabe chegar mais rápido. E ele lhe diz: “corra tola”

Assassinos de oportunidade


Funciona mais ou menos assim. O reflexo do homem que se afoga é agarrar-se a qualquer objeto que encontra na frente, mesmo que ele seja um fio de palha. É dentro da mesma dialética. Dois seres imersos no oceano engolindo água salgada agarram-se um no outro e matam-se simultaneamente.

A questão central é que eu jamais estive imersa no oceano. Se algumas vezes estive em cima de uma canoa furada que o parta, é outra história. Mas e daí? Sempre deu tempo de chegar à ilha antes do barco afundar.

Mas se remar cansa, cansa mais nadar. E se não souber nadar, afunda. Esse é o litígio, nadar sem alcançar terra seca, ou afundar descansado. Cansei de te perguntar e tu disfarçar que não ouviu, e cansei de ter que fingir que não ouvi a barbaridade que tu falas. Se tem alguma coisa que realmente me faz querer afundar de vez, bem longe e bem sozinha, é isso. Chega de abastecer tua munição de morte com vida. E portanto, meu caro, não. Por isso, sim.

Assassinato é o nome. E não falo de homicidas em prol da própria sobrevivência, pois estes ainda assim refletem no sangue da própria faca algo de honra. Assassinos de oportunidade, de aluguel, profissionais, que o fazem por amor ao ofício, pela dose contida de adrenalina em cada vida que se vai lhes trazendo a sensação de soberania. Me falas de amor para nutrir meu ódio, que cresce em força cavalar. O que tu sabes sobre amor? O que tu sabes sobre a vida, e as pessoas, e esse castigo olímpico que tu chamas de mundo?

O que tu sabes sobre dor, e sobre o que esta pode fazer de estrago num coração humano? Te respondo, tu nada sabes sobre isso. O que tu sentes é ausência de prazer completo, falta de gozo pleno, o que tu sentes é teu ego contrariado, e teu orgulho ferido, e isso em nada me comove ou me enternece.

Lamento muito te informar, mas amor está a milhões de anos luz de distância do teu egoísmo, do teu cárcere dentro de ti mesmo, das tuas carícias letais, das tuas lanças afiadas que atravessam a carne seguidas afagos tão seguros quanto a queda do décimo segundo andar, desse sarcasmo corrosivo e auto-suficiente, e dessa cruz de pedra que tu cravastes cerrada no peito que vos fala para não contente, revirar. E isso que tu sentes e chamas de dor, não chega nem perto da casquinha da ferida mais superficial que eu tenho, e nem por isso eu mato alguém.

A fragilidade da hora





Hoje revi fotos e cartas antigas. Registros de vida, por assim dizer. Faz tanto tempo, e parece que foi ontem. Hoje eu parei um pouco para sentir, o ritmo alucinante da vida sempre parece se sobrepor ao sentimento. Hoje em dia se fores perguntar para qualquer pessoa o que ela faz, a lista é extensa. O que tem na sua agenda hoje? Será que você tem tempo para ler esse texto?

Acorda, toma banho, toma café, vai trabalhar, e vai voando. Tem reunião as 9:00, tem relatório pra entregar as 10:00, tem prazo até as 11:30, almoça, volta a trabalhar, checa os e-mails, trabalha mais, se segura ao freio máximo para não quebrar a cara do chefe, se concentra, foco. Trabalha, entra no MSN pra espairecer, volta ao trabalho. Final do expediente. Vai pra aula, chega cansado, mas tem prova, tem matéria nova, ou tem trabalho que vale nota ou mesmo você esta já pagando uma nota pra não prestar a mínima atenção. Então acorda.

Nesse meio tempo tem que ter brechas para ler, senão emburrece. Tem que treinar com a mesma obrigação que vai trabalhar, e comer de forma saudável porque corpo é casa. Falando nisso, tem que encontrar tempo para ir ao médico, dentista e terapeuta, porque saúde é fundamental. Faz a mão e pé, cuida muito bem dos cabelos, passa hidratante depois do banho, e cremes específicos para o rosto, porque beleza é fundamental também. Tem que ser produtivo e se destacar de alguma forma, porque se não for despedido vai ser ultrapassado pelo colega da mesa da do lado. Atualizar-se constantemente, tem que estudar, tem que estar informado, mas tem que ter tempo para construir opinião e pensar a partir de idéias próprias, senão vira robô. Tem que se fazer presente para os familiares e nunca esquecer da família que você mesmo escolheu, seus amigos. Como se fosse só isso. Pensa aí, quantas outras milhares de coisas acontecem entre uma coisa e outra?

Vivemos no mundo da técnica especializada, na digitalização da eventualidade, onde tudo parece ser passível de transformação numérica e portanto previsível. Vivemos no império da Ciência, onde criamos nossas convicções de vida saudável e prolongada, muito em breve vamos nascer com prognóstico genético: "Fulano, tantos centímetros, tantos quilos, possibilidade de 90% de câncer na próstata aos 40 anos."

O tempo parece cada vez mais adquirir uma nova dimensão com a velocidade ininterrupta dos acontecimentos, nosso olhar sempre voltado para a próxima tarefa, sintoma de nossa lógica de produção. Você toma banho pensando em que roupa colocar, se veste pensando em qual caminho tem menos trânsito para chegar ao trabalho, em plena segunda-feira já sonha com o final de semana, chega sábado você já pensa que domingo será ruim porque depois de domingo tem segunda-feira de novo, e assim vai. E as semanas passam. E passam as estações, e “já estamos em setembro!” E assim passam-se os anos.

Eis a fragilidade da hora. O estado de fraqueza que é o passar do tempo, sem nem mesmo parar para perceber que os dias não retornam. Pensamos que temos uma vida “cheia”, sem acordar de nossa indiferença a esta irremediável contagem decrescente rumo ao nosso próprio fim. Afinal de contas, o que é realmente importante para você? Nosso passado em grande parte é pura criação nossa. Não é feito de realidade. É feito de significado, da forma como as vivências foram por nós significadas e armazenadas. Nosso futuro também, pura invenção nossa. Planejamos, decidimos, seguimos estratégias, mas sempre surgirá o acaso, sempre existirá o imprevisível.

O tempo é relativo, provou Einstein do alto de sua genialidade. Se você pudesse viajar num trem na velocidade da luz, o tempo para você seria sempre igual à zero, simplesmente não existiria! Você não envelheceria, permaneceria jovem em relação a quem não está dentro do trem. Este é o principio da dilatação do tempo, e decorre de sua própria natureza. Mas você pode entrar em outro trem, e ter o mesmo resultado simplesmente vivendo o agora. Nunca um banho vai ser tão bom se você estiver presente, nunca o seu trabalho será tão produtivo se você estiver concentrado exatamente no que esta fazendo, nunca seus relacionamentos serão tão ricos se você estiver inteiro.

Drummond já dizia: “Eterno é tudo aquilo que dura uma fração de segundos, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata.”

Tempo é a gente quem cria. Tempo é a gente quem faz. Tempo é a gente quem escolhe. Escolha como viver o seu, mesmo que o mundo ao redor pareça envelhecer.

Eternize.

Rosa-dos-Ventos



Eu tremo.

Falha o equilíbrio. E abro os braços. Ao oeste, todas as outras sortes e fadários parecem se confundir. É ali que elas se põem, e se vão, sob a luz dourada que o horizonte emana pelo céu em degradê, obra do acaso, obra sagrada. Balanço.

Espaça o equilíbrio. E contraio os extensores. Ao leste paisagens e essa saudade imensa. Por ali que a Terra gira em torno do próprio eixo, por ali tudo começa. Onde nasce o Astro Rei, lugar do brilho e da luz, equinócios em eclipse ao equador celeste. Vacilo.

Vaga o equilíbrio. E estabilizo a coluna. Ao norte o outro vento, onde eu não vôo e não vou. Constelação da Ursa Maior. Quente como meu desprezo, quente como meu marasmo, morno como meu repúdio. Não me move nem comove, mas me inquieta. Hesito.

Falta o equilíbrio. E ergo a cabeça. Ao Sul minha casa, minha terra, meu povo. Meu Minuano que uiva como lobos, corre. De mim, do meu centro, ele nasce. Circula por toda escuridão, por todas as noites e manhãs, torneia as colinas e os pampas e volta aqui pro meu peito, onde cessa. Minha direção, meu destino, minha vida, minha morte, meu desejo. Oscilo.

Eu tremo.
Eu balanço.
Eu vacilo.
Eu hesito.
Eu oscilo.
Mas insisto em não cair.

Que inferno!



Por crédito cristão ou mesmo dentro da tradição mitológica, herdamos uma imagem do inferno como um espaço destinado às almas perdidas, repleto de fornalhas, instrumentos de tortura com pano de fundo de fogo eterno tal como Dante ilustrara na Divina Comédia, dotada de um contorno medieval com seus julgamentos e penitências. O inferno sempre esteve associado ao sofrimento, tormentos e horror. E o inferno existe.

Sou bem partidária do inferno sartreano, até por uma questão estética. Para ele, a decoração seria estilo Segundo Império, nada de janelas, espelhos, nem passagens, as fornalhas trocadas por uma lareira e as criaturas demoníacas por estatuas de bronze, além de ter canapés. Pelo menos é assim que ele o descreve na peça “Entre Quatro Paredes.” Melhorzinho né? A única concordância é a temperatura ambiente. O inferno é quente. Mais quente – me parece – que o Brasil. Ah sim, a parte do horror também encontra-se em comum acordo.

Proponho tratar aqui da máxima sartreana, que seria a idéia central da peça mencionada. Eternizada por aquela frase clássica, já exaustivamente repetida e erroneamente empregada: “o inferno são os outros”. A frase foi mal-compreendida e mal utilizada por muitos. Isto se explica (ironicamente) pela nossa própria concepção de outros. Temos dois tipos de outros.

Temos os outros imaginários, os mesmos outros que minha mãe jurava que viviam me condenando se eu não portasse como uma mocinha em público. Esses outros que pensavam e pensavam sempre mal. “O que os outros vão pensar?” Crianças costumam ter medo de bicho papão, eu tinha medo dos tais outros, deviam ser bem malvados esses outros. O problema é que as crianças crescem, deixam de acreditar em bicho papão, papai Noel e coelhinho da Páscoa, mas grande parte dos adultos continuam acreditando nos tais outros.

Quantas coisas que tem vontade de fazer não abrem mão por causa deles, quantas amarras colocam no próprio no corpo por causa deles, quanto desconforto elas sentem em público por causa deles, quantas horas na frente do espelho elas passam para que sua aparência, roupas e acessórios sejam aceitas e julgadas apropriadas por eles. Quanta grana elas não gastam com carros monstruosos, para mostrar para os outros que podem. Mas podem o quê? Afinal de contas, quem são eles, e onde estão eles? Estes outros não podem ser as pessoas em geral, porque elas ou estão com medo dos mesmos outros (e por isso não estão nem aí pra ti), ou estão pouco se lixando para os tais outros e vivendo sua vida como querem (e portanto ainda mais, nem aí pra ti).

Temos também os outros reais, estes sim com quem nos relacionamos, interagimos e compartilhamos (ou que por qualquer motivo que seja, resolvemos nada partilhar). Mesmo assim, estes outros são fundamentais para nossa própria noção de eu. Primeiro porque o ser humano é o único bicho que nasce completamente dependente de outros. Um cavalinho nasce e blof! Já é lançando ao chão. Mal caiu já tenta se erguer nas frágeis perninhas, mas fica de pé, encontra a teta da égua sozinho, e mama. Nós não, se ao nascermos, formos jogados e deixados no chão, morremos. Ou na queda ou na inércia. E segundo porque nos constituímos na relação. Sartre já dizia:

“Quando pensamos em nós, quando buscamos nos conhecer, usamos, no fundo, os conhecimentos que os outros já produziram sobre nós. Nós nos julgamos com os meios que os outros nos deram para nos julgar. O que quer que eu diga sobre mim, sempre o julgamento do outro vive em meu íntimo.”

Quem duvida, que faça um retrocesso mental. Vai se dar conta do quanto repete (sobre si mesmo) o que seus pais diziam. Ou tios, avós, irmãos ou sei lá quem lhes criou.

Tem ainda uma terceira consideração. Os outros – reais ou imaginários – são indivisíveis. Isto porque imaginamos o outro real, e vivemos como real os outros imaginários. Uma confusão só. Ai que parece estar o inferno né? Chegou a ter vontade de fazer a malinha e ir morar numa ilha? Espere só mais alguns parágrafos. Nem Sartre em sua vasta sabedoria defendeu o homem por si só, e nem eu no meu escasso conhecimento pretendo fazê-lo.

O que ele constatava era a existência de uma quantidade imensa de gente no mundo que fica voluntariamente no inferno, ou porque depende muito do julgamento do outro, ou porque procura reconhecimento no outro, ou ainda porque odeia demais os outros. Sim, se alguém desperdiça energia em ódio e vingança, por exemplo, fica na total dependência no outro. Ao voltar-se demais ao objeto de seu ódio, medo, ou destruição não vive nunca a própria vida.

Isto é o inferno, uma sala fechada que as pessoas entram voluntariamente. E ali permanecem. Poderíamos resumir o inferno de Sartre no tipo de relação que estabelecemos com os outros, e a condição de permanência no inferno na repetição continua do mesmo padrão de relação. Tem alguém que te odeia, ou que – com o perdão da redundância – tenta te infernizar a vida? Pois deixe-o queimar sozinho no próprio inferno, e vá cuidar do seu céu. Não desperdice vôo, não desperdice libido, não desperdice existência, biografia, ou coração. Qualquer que seja o círculo do inferno que se possa encontrar, sempre existirá a possibilidade de quebrá-lo.
Quebre!

Enquanto você dormia


Enquanto você dormia eu cuidei para que a luz não te atravessasse, mas nunca deixei o quarto demasiadamente escuro. Te cobri com cuidado, para que não passasse frio. Enquanto você dormia, eu andei pelas trevas e pelos infernos e voltei pé por pé para não ruir nos teus sonhos. Eu sussurrei o que gritava e na maior parte do tempo eu calei o brado do mundo, para não fazer balbúrdia no teu silêncio.

Eu fui até a aurora, para procurar o melhor nascer do sol. Eu encantei o vento para que o tornado virasse brisa em primeiro sopro, e eu busquei o fôlego para soprar para longe todo o teu tormento. Eu criei o tempo anti-horário só para te tirar o peso da pressa, eu eternizei. Enquanto você dormia, meu bem.

Eu peguei pela mão e colhi as fadas, as luas e os orvalhos para que existissem, eu brotei a vida pelos galhos secos, eu fiz nascer. Eu velei teus olhos cerrados e tuas dúvidas, eu vigiei. Não te deixei só em nenhum instante, por baixo das tuas cobertas eu te alcancei nos meus abraços. Passei noites de zelo em claro, para beber na tua boca as tuas lágrimas secas. Queria tanto que dormisses em paz. Contornei teu corpo com a delicadeza que um pintor traça os fios imaginários antes do toque do pincel na tela. Enquanto você dormia.

Mas teu sonho só tinha espaço para um, e eu quis o sonho compartilhado. Ao pesadelo, por entre as paredes do teu quarto, olhei meus pedaços pendurados. Pelos teus armários e gavetas, pelo chão espalhados e revirados, partes minhas. Peguei o que consegui de mim na minha urgência por sair, os que não encontrei talvez aí ainda estejam.

Saí do teu quarto meu bem, enquanto você ainda dormia. Talvez tenha fechado a porta com força, mas as portas que fecho se cerram na explosão, não ficam entreabertas circundando entre ir e vir. Acordastes com cama vazia e no momento tardio. Agora é minha vez de sonhar e o sonho já é outro sonho.

Mulheres fálicas


O papel por muito tempo designado às fêmeas sociais, o da contenção e da passividade, as mulheres de voz e cabeças baixas, concordantes, de seios figurativos à amamentação e de ventres roliços destinados à procriação, passam a diluir-se na atualidade, com a libertação da figura feminina, sua inserção na arena do trabalho e comprovação de competência. Hoje os papéis entre masculino e feminino se fundem, ou pelo menos se misturam, e aos poucos emerge uma nova subjetivação de mulher, cujos contornos que outrora eram feitos a lápis em traços sutis, hoje aparecem pintados com a mesma intensidade com que uma agulha perfura e tatua a pele.


Refiro-me às mulheres fálicas. Essas mulheres, que assustam os homens asfixiados e confusos da pós-modernidade. Toda a mulher que nasce hoje, já nasce com uma autorização ao masculino. Já se forma em uma sociedade que lhes garante não apenas os direitos, mas os deveres. Ao voto, ao estudo, à voz-ativa, aos cargos de poder, tomada de decisões, ao volante, ao divórcio, ao espermatozóide anônimo, a discórdia, ao sexo. Paradoxalmente, não nos livramos de nossos “deveres antigos”, de sermos amáveis, simpáticas, sorridentes, bonitas, prendadas, boas parceiras e boas mães, e quase que invariavelmente, o menos fálicas possíveis.


Temos na história, algumas representações de mulheres fálicas que viraram ícones. São poucas, tão poucas que viraram ícones. Na política, na música, nos negócios, na literatura, na psicanálise, nos esportes, lá estão elas. Conheço de perto algumas. Dia desses me encontrei com uma delas, que me relatava alguns insucessos em suas aspirações amorosas, ao que eu lhe apontei que ela era tão fálica que devia assustar os homens, quem sabe se fosse um pouco menos.


Ela me rebate sem nem pensar para responder, “eles que aprendam a lidar com a minha verdade”. Decidida. “Sou mesmo tão fálica que comprei meu próprio pênis!”, ela me lança, referindo-se ao vibrador de coelhinho cor-de-rosa que trouxe de viagem. Mulheres fálicas não são passivas, são ativas. Mulheres fálicas penetram, adentram, perfuram e gozam onde bem entendem.


Mulheres fálicas são fortes, funcionais, elas buscam, catam, procuram, tem a mente voltada para o movimento, não se contentam com o lugar de trás. Ficam num impasse, porque também não querem andar na frente abrindo a trilha sozinhas, querem um homem igualmente ou mais fálico do que elas próprias, e estes também estão em falta. Quando existem são aqueles machões rusticamente trovejantes e grosseiros, que uma mulher que é fálica mesmo jamais vai se atrair, porque para elas inteligência e sensibilidade também são afrodisíacos, uma coisa não anula a outra. Complexo.


O que os homens ainda não descobriram, é que atrás de toda leoa feroz existe uma gatinha que pode ronronar, que vai defender a prole com unhas e dentes, e que vai lutar até a morte pelos próprios princípios. Ela é para fora, e portanto muito mais confiável, visível, fiel consigo mesma, fiel com sua própria verdade. Voltando a minha torrencial amiga, ela consegue transitar nesse pólo sem ferir. Fala na minha cara o que não gosta, onde foi que eu errei, e o que espera de mim. Se mostra, se lança, vive na intensidade dos sentidos, me encanta de uma forma que tenho um orgulho gaudério de tê-la como amiga. Não entendo como um homem possa temer isso, e não entendo como um homem não possa se apaixonar por isso, mas os homens são estranhos.


Talvez não apenas os homens não estejam preparados para elas. Talvez o mundo não esteja. Mas ser fálica é isso mesmo, é estar frente ao seu próprio tempo. Concluo portanto, me curvando aqui, em reverência à audácia, coragem, valor e existência de todas estas mulheres.

Dark side of the rainbow



Existe sempre um Universo Oculto, no dentro, no fora e no entorno.


O assunto me fascina, desde sempre. Em tempos remotos podia sentir tal existência apenas no instinto, farejando o vento, em algum resquício que ele leva e trás. Hoje dentro do meu pequeno conhecimento, sei que temos e estamos dentro de universos infindos e paralelos.

Sendo a maior descoberta freudiana, o inconsciente consiste (de forma muito reducionista) em um complexo psíquico de caráter insondável e obscuro, uma fonte misteriosa, cujas gotículas nos viriam a superfície (ao consciente). É dele que emergiriam as paixões, as pulsões, o medo, a criação, a própria vida e morte.

Desde os tempos modernos, depois da Ciência virar nosso Deus, fomos tomados por uma necessidade de linearidade causal. Nosso raciocínio, organização e compreensão de mundo se organizam em torno desta exigência de conservação linear. Com isso evoluímos bastante na matéria, na tecnologia e em alguns outros departamentos, mas estancamos algo de primitivo, algo de instintivo, algum sentido sexto ou crescente.

Atualmente, temos na Física Quântica um contraponto, que começa a questionar a existência de algo fora daquilo que se intitula como realidade, algo que fuja do nosso construto de tempo, de nossa experiência subjetiva de "flecha do tempo" apontada para frente. Necessidade de lógica, de ver pra crer, de tocar para sentir, de ter para ser.

Quem sabe se quebrado isto, nós humanos não poderíamos passar a viver de forma mais integrada, sem tanto determinismo e com mais criação e percepção, com vias mais abertas de acesso a outros tempos, outros ventos e outros espaços, e pudéssemos enxergar melhor sobre a neblina que nos toma.

É por essas e outras que também me fascinam as mentes artísticas, as crianças e mesmo os instintos animais, os atos-falhos e os sonhos, e toda construção que se dá a partir daí. Me atraem as divagações, e os seres humanos que arriscam sair da lógica formal para rodopiarem em algo não lógico, mas de completo sentido, sem medo da desintegração. Enquanto não saímos deste abismo, vou continuar me esforçando para não estancar aquilo que se abre em mim e para mim, e que eu pesco sem querer querendo.

Dentro dos olhos


Olhei-te pelo canto dos olhos
Ali onde algo parecia encantar
Surgistes dentro de uma tela vazia
Expressões congeladas de ser

Te vi através da tua íris e arcos
E flechas que apurei desviar
Em vão, tuas cores são claras
Entram pelas frestas como raios de sol

Enxerguei-te no escuro da noite
Ali por onde caem estrelas
Sem conseguir fixar teus olhos
Medo de me perder no final da íris
Teria mesmo o fim e ouro?

Não quis ver em inútil reluta
Cedendo fechei meus olhos
Em tributo, para poder lhe enxergar
Existem mundos que só abrem no fechar
Dos olhos

Já te carrego dentro do olhar
E te encontro nas cores que vejo
Estás dentro da minha pupila dilatada
Dentro da minha pálpebra fechada
Na voz que lhe entrego ao teu fechar
De olhos e nesses teus olhares abertos
Que vão me abrindo sem saber

Bulimia Emocional


O termo grego boulimos é antigo. Hipócrates o empregava para nomear uma fome doentia, não fisiológica. Bulimia provêm de bous (boi) e limos (fome), o que significa uma fome tão grande que se pode comer um boi. Uma pizza inteira, tem em torno de 1600 calorias. Inteira. Segundo registros, pessoas com bulimia podem chegar a ingerir cerca de 20.000 calorias em um único episódio compulsivo. Em pizzas, isso seria o equivalente a 12 pizzas. E meia. Em cerca de uma hora.

Uma das características da bulimia é a ingestão descontrolada de alimentos em um curto período de tempo. Detalhe que isso é feito sem prazer, uma vez que a comida – praticamente engolida sem mastigar – nem é saboreada. A ansiedade do momento é tamanha que o episódio apenas cessa quando se chega a um mal-estar físico. A sobrecarga digestiva, a alteração metabólica, a culpa e o medo de engordar levam a atos compensatórios, tais como indução do vômito, execução de atividade física até o desgaste integral, períodos prolongados de jejum, etc.

Engolir. Engolir tudo o que vê pela frente. Um problema. Sem saborear, sem sentir o gosto, sem fundo ou com fundo-falso. Um buraco na alma, que nada preenche. Uma fixação oral de voracidade desenfreada. Familiar.

Pois eu engulo mais do que 12 pizzas e meia de uma vez. Eu engulo o mundo. Eu engulo um romance inteirinho em duas horas. Ao viajar, eu engulo a cultura local, eu quero engolir todos os lugares, todos eles, aqueles que ninguém conhece, que não estão nos guias turísticos. Não durmo para não perder nenhuma migalha. Eu engulo todas as ruas, atalhos e desvios. Engulo tudo que ouço, o que me dizem e o que calam. O que escuto, engulo todos os sons. Engulo tudo o que eu vejo. Mesmo se fecho os olhos.

Ainda tem espaço para o que grita, arranha e arde. Eu engulo o amargo, o doce, o salgado, e o azedo, sem sentir o gosto, tudo de uma vez, porque estão lá. O que está ao alcance eu entranho garganta a dentro, o que não está eu vou ir buscar para engolir. E eu sempre encontro. Eu engulo a dor, não só a minha, a dos outros também. Engulo a fome do mundo.

E a miséria, e os olhares de indiferença para as crianças suplicantes nas janelas dos carros, os cachorros mortos e abandonados pelas rodovias, e os bêbados degradados que atravessam o farol em plena luz do dia. Eu tenho que engolir ainda os que tentam me engolir, aqueles homens esvaziados de existência. Eu engulo a dissimulação alheia, as religiões de pau oco, as traições sem fim. Toda essa maldade, toda essa desgraça, toda essa adversidade. Eu engulo a falta.

Me encontro empanturrada até a garganta de tudo isso e tenho que tirar, então vim vomitar aqui. Antes aqui do que em outros lugares, porque senão pra limpar depois vai ser pior. Mas eu tenho fome. Eu tenho fome de justiça, eu tenho fome de um povo em que “ser” esteja antes de “ter”. Em que a palavra esteja antes da lei. Em que se honre e sagre o próprio sangue. Em que a essência seja apreciada antes da aparência. Eu tenho muita fome de respeito e de liberdade, mas não o ideal de liberdade carcerária herdada do século XIX. Liberdade de verdade. De relações de verdade. De sentimentos de verdade. Eu tenho fome de mais sinceridade e menos falsa educação. De entrar de peito mais aberto e menos armado. No amor ou na guerra. De coragem, de força que não seja só de brado. De arte, de sentido, de beleza, de instinto, de expressão, de cor, de espontaneidade. De clareza, de transparência, de humanidade. De mundo. Tenho muita fome.

Entre nós (conversa de menina)


Fim de tarde no meu Rio Grande, desses que só o povo gaúcho sabe o quanto tem de poesia e de orgulho, indo em direção a casa de uma amiga pra tomar um mate e colocar a semana em dia.

Ao dirigir até lá passo por lugares mais antigos da cidade de Novo Hamburgo, a mesma em que nasci e me criei, que me trazem uma saudade melancólica de algo que certamente nunca vivi, mas carrego em mim. Tudo fazia cenário para minha convicção de que iria chegar em casa no alto de minha própria inspiração, além do quê provavelmente teria que parar a conversa para escrever alguns versos soltos como costumo fazer quando me encontro com ela, o que evoca nela um sorriso maternal como quem assiste uma criança fazendo rabiscos rasurados jurando que é uma frase. Ela acha bonitinho e esse olhar dela acalma uma parte dessa minha alma inquieta.

Em parte eu estava certa. Mas esta amiga me vem com uma analogia que transformou esse encontro no diálogo do mês, o qual tive que negociar bastante para transcrever aqui. Queria creditar mas a condição de publicação foi permanecer no anonimato, mesmo com minha argumentação de que a tese poderia entrar para o currículo dela. Nada feito.

A pauta girava em torno do quanto as pessoas, já tão acostumadas com a selva de pedra que chamamos de mundo e com os seres cada vez menos humanos que uma lata de Coca-Cola, ao encontrarem alguém cuja existência coloque em xeque a freqüente constatação de que ninguém mais presta, se afobam ao ponto colocar tudo a perder. Por tanto querer, acabam ficando sem.

Conversamos a respeito do quanto as vezes se força uma intimidade que não existe, se conjuga o nós enquanto ainda são apenas eu e tu, se apressa as coisas numa ânsia de querer. Essas coisas tão comuns que vemos, vivemos e fazemos. Eis que ela me lança:


- Eu acho que isso ai é que nem clitóris.

- Hein?

- Clitóris guria. Vulgo grelinho, vulgo sininho.

- Sim, estou familiarizada com a nomenclatura anatômica popular. O que não entendi foi a conexão.

- Simples. Em primeiro lugar, tocar no clitóris sem que se esteja excitada, é broxante. Ou seja, o ato primário deve proceder da constatação de recíproca.

(Me interessei)

- Ok, prossiga...

- Pois bem, depois de constatada a recíprocidade, qualquer movimento brusco pode te levar ao antônimo do prazer. No caso, até mesmo à repulsa.

- Sim, clitóris é que nem olho.

- Exato. Posto isso, mesmo que se comece tão de leve quase ao ponto de nem encostar, se o tempo de perdurar nesta etapa for insuficiente, lá se vai seu prazer todo ralo a baixo.

- Eu posso anotar isso?

- Nem pensar.

(Anotei mesmo assim, desta vez sob protestos de que eu estava proibida de publicar algo a respeito. Nada de olhar maternal.)

- Foco, prossiga.

- Se o rapaz partir para um movimento mais ritmado antes da hora, ou seja, se ele precipitar a coisa, não vai dar certo. Qualquer coisa que apresse o tempo, sairá pela culatra. Da mesma forma, se ele nunca tomar ritmo, e permanecer no camera lenta, tu nunca vai chegar lá, saca?

- Isso deveria entrar para o currículo básico do ensino fundamental e passar a ser ensinado na escola.

- Eu acho que o ponto chave da questão é não se precipitar, a idealização faz isso. Idealiza-se a partir do que se mostra em primeiro plano, um ser que talvez encaixe todos os pré-requisitos que se espera de alguém para dividir o guarda-roupas. No caso do sexo, a diferença de gêneros impõem ritmos diferentes, e que mesmo assim mudam de mulher para mulher, sendo que ele tem que perceber qual é o teu, tem que estar conectado contigo pra perceber isso

- Eu entendo, mas veja bem. Tem tantas gurias, mas tantas gurias que fingem que isso confunde. Ainda na analogia, visto que tem tantas gurias tão desesperadas para entrar numa relação que só faltam escrever na testa “me atropela, pode vir”, e fingem o gozo.

- Sim, fato. Mas mesmo assim, um homem tem que saber e sem necessariamente a mulher falar.

- Um homem tem que ler pensamentos também?

- Não precisa, é só ter semancol. A regra é sempre a mesma, o único caso que contraria a musiquinha lá que tu tanto gosta do Chico. No caso, devagar é que se vai longe.

- E se o cara dançar conforme a música? Esta música, no caso.

- Ai ou tu finge ou tu desce! E ouça um “bom conselho”: melhor descer...
(...)



Para bom entendedor, suco de um gomo mata a sede.



Por mais que escreva, ao ponto de encontrar certa facilidade na descrição do momento em que uma laranja brilhante em baixo da duna de laranjas opacas na feira de frutas do supermercado grita pra que você a escolha como quem dissesse me coma, me devore, deixe que meu doce sumo te escorra pelos lábios, e você afoita sem discernir se está com fome ou com tesão, a arranca de sua base criando uma avalanche de laranjas ladeira abaixo e olhando desconcertadamente a sua volta se perguntando se alguém percebeu o seu ato desastrado, ou como pode o excesso de testosterona produzida pelos seus ovários policísticos fertilizar a sua imaginação com as coisas mais assexuadas possíveis - como uma laranja - quando o sentimento corre de verdade em mim, pouco consigo escrever.

Me faltam palavras. Quer dizer, palavras existem, é lógico. Muitos são os poetas, vivos e mortos que as encontram ou já as encontraram. O problema não está nas palavras, propriamente. Muito provavelmente esta em mim e na forma como eu sinto as coisas.

Como pode alguém sentir tanto, que se esquece do que sente para conseguir sobreviver àquilo? Quando me refiro a sentir tanto, falo de algo que realmente não cabe em um corpo, quiçá em algumas palavras. Ou frases ou textos, mesmo em um livro. Não cabe.

Não me refiro a viver a flor da pele, me refiro a viver em carne viva. Alguém aí julga o meu sarcasmo ou as muralhas de aço que fui construindo ao meu redor ao passar dos anos? Sim de aço. Palha, madeira ou tijolos são para porquinhos principiantes. Alguém julga meu esquecimento ou minha necessidade temporária de evaporar? Porque sumir deixa rastro, evaporar poderia ser mais eficiente. Ainda assim, precisaria desafiar a Física para evaporar o sólido temporariamente e portanto de maneira reversível. Sumo portanto, e o melhor é poder voltar e ter para onde voltar. Eu tenho e honro isso.

Sem mais dispersões, descobri desde que criei o e-mail deste blog que tenho mais leitores do que imaginava, sendo que um deles me escreveu dizendo que acha a maioria dos meus textos muito "pesados e viscerais" e o ponto chave do presente texto estava em conseguir entender (uso a escrita para me entender, e daí?) como centrar uma narrativa com as exíguas proporções de uma notícia jornalística, sem sangue nem lágrimas, simples como a vida é. Pois é, deveria ser, mas não como eu vivo. Às vezes chego a me questionar como que eu posso sentir as coisas em tamanha intensidade e sobreviver. Verdade posta, eu não sobrevivo. Eu morro a cada vez. E sinto toda a dor do nascimento de novo, pois tenho que renascer a cada novo fim, inicio ou meio.

Renascer, não significa voltar novinha em pele de bebê. Significa seguir vivendo, com menos tecido coberto, e mais carne a mostra. O que morreu em mim não evapora, tenho que carregar as cruzes e elas pesam as vezes. Mas não reclamo, já que não me permitem que eu morra mais de uma vez do mesmo mal.

O que gostaria realmente de poder me livrar, é dessa minha mania insuportável de prever a dor do nascimento pós-morte e virar pó antecipadamente ao começar as coisas pelo fim, vivendo o meio para voltar ao inicio, onde deveria estar meu ponto de partida. A vida tem vontade própria e segue um curso natural das coisas, brinca com minhas cicatrizes e me cerca por todos os ângulos para que eu comece pelo início de uma vez por todas. O que por sua vez trás todos os meus fantasmas e assombrações, minhas pseudo certezas, minha racionalização explicita que é a minha defesa mais bem elaborada.


E lá vou eu denovo nadar no sentido anti-horário do meu próprio tempo, quem tem coração que sangra sabe como é. Escrevo assim porque não sei viver e nem sentir de outra maneira que não seja por inteiro. Minhas árvores fazem sombra, meus frutos são latentes e meus gomos dão um caldo tão denso que talvez um estômago mais frágil tenha que misturar com água. Tem mais, tem sempre muito mais naquilo que você leu. Então imagine que você lê os textos de alguém que morreu e nasceu varias vezes numa mesma vida e que nem tanto tempo de vida propriamente dita tem. Por isso entenda que às vezes eu vou escrever na apologia ao “tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com minha dor”. Tenho certeza de que não fui clara. Mas é assim mesmo, eu nunca encontro as palavras. Laranjas são o canal.





PS-

Quero provar que existe de fato um inconsciente coletivo. Uma hora depois que postei este escrito, meu amigo Francis Londero, que nunca sequer decora o endereço do meu blog, me envia um texto que vai absolutamente de encontro com o que tentei escrever. Como achei o texto dele genial, pedi a autorização do próprio para postar aqui, em complemento. Seguem suas palavras:

"Realmente, a melhor escrita, ou, as melhores idéias nos alcançam em momentos inoportunos, no caso, quando não as esperamos. Pode ser numa noite mal dormida de insônia que resistimos fazer outra coisa senão dormir, assim como depois de muitos goles de vinho já embriagado por Dionísio onde somente encontramos linhas tortas. Sei lá!!!

O fato é que no momento da distração e até mesmo do não querer pensar é que ocorre aquilo que desejamos escrever, mas, que sempre acabamos por deixar de lado por imaginar que existirá o momento propício para isso.

Pobre escrita que sucumbe em sua naturalidade quando ambicionamos fazer dela uma burocratização. Os traços neuróticos que tomamos para nós como segurança para determinada produção somente aniquila o Ato singelo da criação.

O pior disto é que não ocorre somente com a escrita. Por comodidade efetuamos isso por todos os lados de nossas vidas - a cercamos com arame farpado. Atos direcionados em oposição a liberdade da criação. Creio que isso possa ter relação com o medo da morte, já que criação sempre vem acompanhada do falecimento daquilo que tínhamos programado por hora. Logo, podemos presumir que a criação é a maior de todas as assassinas!!! Mata o script ao nos jogar para o improviso. Lugar do inesperado paradoxalmente tão esperado pelos humanos medrosos que ficam a protelar tal instante. Como já dissera Nietzsche: Humano, demasiado humano!

Finalizando por hora, uma última frase que não sei mais de quem é (se é minha ou do Nietzsche): A revolução, a paixão e a criação somente são possíveis em momentos de esquecimento."

Born to be wild





Hoje a selva se curva
Em meio aos cordeiros
Poucos são leões

O relâmpago e o estrondo do trovão
O movimento e a permanência
Toda realeza felina
A majestade, a garra e a soberania
“Um filhote de leão, raio da manhã ”
Parabéns meu fiel amigo



“ And I'll be there when the stars don't shine

Till the heavens burst and

The words don't rhyme

(...)

You see I've always been a fighter

But without you I give up”

Invento


Se eu não segurar
Caso a lágrima escorregar
Invento a canção
Se os olhos enfadarem
Se cansarem de enxergar
Invento o sonho

Se ninguém for me seguir
Caso eu tenha de partir
Invento a ilha
Se acaso eu me ferir
Ou até dilacerar
Invento a cura

E para aquilo que não cura
Invento o tempo
Se eu me acostumar
Ou para não enlouquecer
Invento insanidade

Para não me adaptar
E não vir me conformar
Invento a guerra
Se o corpo desejar
E a alma concordar
Invento o deleite

Para lembrar de não errar
Invento a culpa
E para o dolo do pecado
Invento o perdão

Se for hora de lutar
Pelo próprio sangue honrar
Invento a batalha
Se não tiver como voltar
Se em mim vier matar
Invento o novo
E volto forte

Quando não conjecturar
Se a sombra vir pairar
Invento a luz

Se tiver de disfarçar
Ou precisar expressar
Invento a arte
Quando a dúvida chegar
Em ambigüidade eu me tornar
Invento o inverso
E selo o verso

Se eu parar de respirar
Se a garganta laquear
Invento o ar... aspiro
E inspiro

Para prosseguir
Ou continuar
Para persistir
Ou para recuar
Para progredir
Ou adiantar
Para florescer
Ou para prosperar
Para viver...
Invento

Mas para existir
Eu vento